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sábado, 19 de novembro de 2016

O Tênis Clube e Chico Rolim

por Francisco Frassales Cartaxo, publicado hoje no  jornal Gazeta do Alto Piranhas
Francisco Matias Rolim foi figura importante em Cajazeiras. Nascido em Olho d’Água do Melão, ali perto da divisa do Ceará com a Paraíba, Chico Rolim afirmou-se, rapidamente, no comércio de tecidos, na sociedade e na política. Vereador, presidente da câmara municipal e prefeito duas vezes, eleito em 1963 e 1976, foi beneficiado por duas prorrogações de mandatos, no tempo da ditadura, governando o município por 11 anos. 
Antes do sucesso na política, Chico Rolim já era festejado no 
No centro da foto, Dr. Hilbebrando Assis e Margarida
Vasconcelos, então Miss Paraíba (1956), sendo
recepcionada no Cajazeiras Tênis Club
meio social, graças a seu jeito de lidar com as pessoas, sua animação nos badalados clubes daquela época: o 8 de Maio e o Primeiro de Maio. Por isso, teve participação ativa na criação do Cajazeiras Tênis Clube, o ponto da elite cajazeirense daquele tempo. Aliás, pretensiosa elite, a começar pelo nome dado ao clube, sem que houvesse sequer raquete de tênis, muito menos quadra para a prática do esporte... Até aí, tudo bem. Pior foi o Tênis Clube nascer violando a história. Mais tarde, muito depois, Chico confessou seu erro, como está registrado na página 97 do livro “Miolo do Sertão - A história de Chico Rolim contada a Sebastião Moreira Duarte”:
“Pois bem, devo ter sido a segunda pessoa mais in- fluente em Caja- zeiras, no propó- sito de botar abai- xo a casa de Mãe Aninha, para ali se construir o Caja- zeiras Tênis Clube. O meu amigo dr. Hildebrando Assis, presidente do 8 de Maio, tratou, an- tes de tudo, de convencer seu vice-presidente de que deveríamos mudar não só o nome de nossa associação, mas também o local, e em toda a cidade nenhum espaço seria mais privilegiado para o clube mais requintado de Cajazeiras do que aquela área entre os dois baldes do açude.”
A casa de taipa que depunha contra a grandeza do Padre Rolim
E assim fize- ram. Prevaleceu a vontade dos de- fensores do “pro- gresso” contra os que se apegavam à “tradição”, co- mo se propagou então, inventan- do-se a falsa polêmica do “a- vanço” versus o “atraso”. A casa era marco da fazenda Cajazei- ras, pertencente aos fundadores da cidade. Para destruí-la, havia outra razão, guardada a sete chaves. Parte da elite “progressista” envergonhava-se da antiga morada do padre Inácio de Sousa Rolim. Por quê? Porque a casa era de taipa. Portanto, indigna para servir ao grande educador do sertão, o padre-mestre, o santo. A casinha depunha contra a grandeza do padre Rolim, diziam. Não invento. Apenas recordo. Menino, quase rapaz ouvi semelhante asneira, dita no alpendre do casarão onde nasci. E lembro quem usava esse argumento, sob o olhar triste de meu pai, Cristiano Cartaxo, inconformado com a derrubada da centenária casa de Mãe Aninha. Onde, aliás, um século depois, residiu o avô de Chico Rolim. Chico está aí, lúcido, para confirmar.
Ironia do destino: no Cajazeiras Tênis Clube, o ex-prefeito Léo
Abreu reúne beneficiados do Bolsa Família
Valeu a pena? Com menos de 50 anos de inaugu- rado, o Tênis Clu- be já se tornara um trambolho. Por um triz não virou sucata imo- biliária, até que, graças ao denodo de Rubismar Gal- vão e outros ab- negados, resolve- ram salvá-lo em nome da tradição. Que ironia! Tradição desdenhada nos anos de 1950, quando se pôs abaixo um patrimônio histórico de Cajazeiras. Tão importante quanto o acervo imaterial legado por Deusdetit Leitão à UFCG. Acervo que precisa sair das caixas onde se encontra. Do contrário terá o mesmo destino do Museu da Diocese. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cardeal Arcoverde e a diocese de Cajazeiras

Por Francisco Frassales Cartaxo 
O cardeal Arcoverde é nome de praça em Cajazeiras. Mais do que isso, em Pernambuco é nome de município, que se chamava Rio Branco, em honra ao Barão do Rio Branco, e virou Arcoverde, homenagem ao filho ilustre nascido na fazenda Fundão, propriedade de seu pai, Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti, conhecido como capitão Budá. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930), ainda menino quase rapaz, veio estudar no colégio do padre Rolim. Pouco tempo depois de concluir os preparatórios viajou para a Europa. Por isso, o cardeal Arcoverde ligou-se para sempre a Cajazeiras. Mas não fica apenas no estudo. Colega de Cícero Romão Batista no famoso colégio do padre Rolim, os dois tomaram rumos diferentes. Joaquim Arcoverde estudou em Roma e na França. Voltando ao Brasil, fez-se vigário e professor em Pernambuco. E bispo em São Paulo e no Rio.
Quando se espalhou a notícia dos “milagres do Juazeiro”, em 1889, a hóstia banhada em sangue na língua da beata Maria de Araújo, Arcoverde não gostou nada de saber que padre Cícero estava no caminho da perdição, como então era considerado pela hierarquia da Igreja o desvio trilhado pelo também ex-aluno do padre Rolim. Entre outras atitudes e ações contra padre Cícero, o bispo Arcoverde encaminhou à Congregação do Santo Ofício (Inquisição) informações críticas a respeito dos “falsos milagres”. Isso é o que admite o pesquisador americano Ralph Della Cava, especulando ainda que: “É possível que Arcoverde tenha também solicitado uma ação enérgica por parte de Roma a fim de destruir Joaseiro, assim como ele havia aconselhado d. Joaquim a fazer, em dezembro de 1891.” De fato, Joaquim Arcoverde criticou com dureza o seu xará, dom Joaquim Vieira, bispo do Ceará, por não ter cortado as raízes com ato enérgico, porque “aí no Joaseiro o ridículo é o caráter predominante. Por conseguinte, nada há ali de divino,” conforme carta transcrita por Della Cava, em seu livro Milagre em Joaseiro, o mais completo estudo sobre padre Cícero.
Que interesse tem isso?
Interesse histórico. Este ano a diocese de Cajazeiras festeja o seu primeiro centenário e, até agora, não encontrei nenhuma referência explícita ao papel desempenhado pelo cardeal Joaquim Arcoverde na decisão da Igreja de escolher Cajazeiras para sede da segunda diocese em território paraibano. Não li nem ouvi citação expressa, porém, ando farejando sua influência, quando nada, na estratégia traçada para a criação de novas dioceses no Brasil republicano, após o catolicismo deixou de ser a religião oficial.

Arcoverde conviveu com alguns dos mais importantes personagens dos “milagres do Juazeiro”. Além de padre Cícero, ele conheceu o padre Francisco Monteiro, o intelectual José Marrocos, que também foi seu professor, além de outros participantes ativos nos episódios protagonizados por padre Cícero e Maria de Araújo. Ora, Arcoverde foi padre, bispo, arcebispo em São Paulo e no Rio de Janeiro, antes de ser nomeado , em 1905, o primeiro cardeal da América Latina quando, já estava em plena execução o plano de reestruturação da Igreja no Brasil. Bem articulado dentro e fora da Igreja, a voz de Joaquim Arcoverde deve ter-se levantado a favor da criação da diocese de Cajazeiras.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Barão das Cajazeiras?

por Francisco Frassales Cartaxo
Coronel Justino Bezer- ra é nome da rua, que começa na padre Manuel Mariano e finda na avenida engenheiro Carlos Pires de Sá, perto do Cemitério Coração de Maria. Justino Bezerra era um homem rico, comerciante, proprietário ru- ral, político atuante no final do século 19 e início do século 20. Exerceu com desenvoltura a chefia política em Cajazeiras, tendo sido prefeito muitos anos, quando a Paraíba vivia sob o domínio da oligarquia chefiada por Álvaro Machado. Fazia contraponto à hegemonia dos Rolim, Cartaxo e Coelho. Por coincidência, coronel Justino faleceu em 1913, pouco mais de um ano após a morte de seu grande chefe.
O padre Raimundo Honório Rolim conta que o coronel Justino Bezerra tentou conseguir o título de barão. Teria sido o Barão das Cajazeiras? É provável que tenha desembolsado razoável quantia para comprá-lo. Pelo menos, se dispunha a fazê-lo. Mas a República amanheceu na casa do imperador Pedro II e, de madrugada, deportou a família real. Lá se foi assim a distribuição de honrarias em troca de dinheiro, e apoio material e político à Monarquia. Depois que dom João VI se instalou no Brasil, fugindo do exército de Napoleão, teve início a concessão de títulos de “nobreza” a ricos fazendeiros, produtores de café e açúcar, banqueiros, comerciantes, donos e traficantes de escravos. Era uma troca de favores entre o poder e homens ricos, militares, chalaças e mulheres.
Duque era o título mais importante. Na sequência vinham os de marquês, conde, visconde e, por último, o de barão, o mais insignificante nesse mercado de vaidades e interesses, muitas vezes, escusos. Mesmo assim, quem desejava ser barão haveria de desembolsar uma pequena fortuna, equivalente, na época, a 4 ou 5 anos de trabalho de um soldado, um alfaiate ou um carpinteiro, segundo estimativa de Laurentino Gomes no seu mais recente livro, “1889”.  O título de duque valia três vezes mais do que o de barão. Em tempo de crise, as concessões nobiliárquicas aumentavam muito, como sucedeu nos estertores da Monarquia. Muitos militares foram então agraciados, numa tentativa do Império granjear a simpatia das armas. Tantos que até virou piada. Dizia-se: “Sai daí, cachorro, senão eu ti faço barão”...
Nem por isso, o coronel Justino Bezerra conseguiu seu galardão. O velho monarca Pedro II já havia sido deposto, quando, mesmo assim, o visconde Nogueira da Gama lhe trouxe, burocraticamente, uma pasta com um monte de papeis, inclusive títulos de barão, prontinhos para assinatura, no último suspiro do poder... Quem sabe, o ato do coronel Justino lá estaria encalhado no meio daqueles quase documentos.

Não era só dinheiro, porém, o fermento da “nobreza” brasileira. Havia outras motivações para o reconhecimento do imperador. O título de duque era o topo da honraria. Durante décadas, até 1889, só duas pessoas tiveram a glória de exibir tamanho privilégio: Luís Alves de Lima e Silva, o famoso Duque de Caxias; e Isabel Maria de Alcântara, a duquesa de Goiás, filha de Domitila de Castro, a amante preferida, entre as muitas do imperador Pedro I, que, aliás, a fez marquesa de Santos. Caxias conquistou seu título, lutando na Guerra do Paraguai. E Domitila? Na cama. Mas isso é outra história...


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Wilson Braga e o aeroporto de Cajazeiras

Por José Antonio de Albuquerque
Sobre a luta pela reconquista do aeroporto e das linhas aéreas da cidade de Cajazeiras, quem primeiro teve a preocupação de buscar uma solução foi Wilson Leite Braga, no ano de 1967, portanto há 46 anos, quando ocupou a tribuna da Câmara Federal para falar sobre as preocupações do povo de Cajazeiras com a perda irreparável deste importante serviço.
E Wilson fez uma exposição, com números, dados e informações re- levantes para mostrar a necessidade do aumento da pista, como solicitava o Ministério da Aeronáutica para que tivéssemos de volta as linhas aéreas. Eis o pronunciamento de Wilson, em 1967, publicado no Diário do Congresso Na- cional, no dia 27 de maio:
Somente 16 anos de- pois, quando Wilson as- sumiu o governo do estado da Paraíba, após uma celebre e histórica reunião realizada na Estância Termal de Brejo das Freiras, liderada pelo Rotary Clube de Cajazeiras, ele determinou a ampliação, a reconstrução da estação de passageiros, a mudança do eixo e o asfaltamento do aeroporto em mais uma tentativa de fazer com que a cidade reconquistasse a homologação de seu aeródromo e em seguida o retorno de suas linhas aéreas.
E Cajazeiras recebeu, com uma grande festa, o governador Wilson no dia da inauguração destes melhoramentos, na esperança de uma vitória que se avizinhava, mas infelizmente todos estes serviços e as lutas, naquele tempo, foram em vão.
Muitas foram as idas de Wilson no Ministério da Aeronáutica, que ainda é o donatário do terreno onde existiu o aeroporto, mas a burocracia e as exigências dos órgãos responsáveis contribuíram para o insucesso do pleito dos cajazeirenses.
Para que fique registrado é bom que Cajazeiras saiba o quanto o Wilson Braga lutou pelo nosso aeroporto, enquanto deputado federal e governador, mas assim como Wilson, a cidade espera que um dia este sonho de mais de 50 anos se torne uma realidade.
Wilson, um dos maiores benfeitores desta cidade, como homem público, foi o responsável e quem mais contribuiu para o crescimento da FAFIC, conforme documento produzido pelo Cônego Luiz Gualberto de Andrade e também pela vinda da UFPB para Cajazeiras. Cajazeiras deve muitas honras a este seu grande benfeitor.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

O livro de memórias de Tota Assis

Por Francisco Frassales Cartaxo 

Livro de memória é baú de emoções da família e de amigos. E também fonte para curiosos, cientistas sociais e historiadores, embora usada com reserva em face do grau de subjetividade imanente ao memorialismo. O livro de Antonio Assis Costa desempenha esse papel com perfeição porque a história de Cajazeiras carece de depoimentos seguros, em especial, de informações políticas. Parece até que a imagem grandiosa do padre Inácio de Sousa Rolim projeta sombras fortes e desviam o foco de recantos históricos. Essa tradição vem desde a biografia pioneira do padre Heliodoro Pires, mais tarde retomada por Deusdedit Leitão. Eles e Antonio de Souza deixaram um legado fundamental, mas com visíveis lacunas. As memórias de Tota Assis ajudam a reduzi-las.
O livro de Tota Assis foi uma revelação quando comecei a estudar com mais cuidado a história política de Cajazeiras, mercê da riqueza de episódios narrados por ele, de pistas antes inexploradas, de perfis de figuras marcantes na área econômica, social, política, cultural e partidária da sua época. Tudo isso Tota registra com a simplicidade de quem escreveu suas memórias, sem preocupações com o rigor inerente aos cientistas. Isto não é função de quem divulga suas recordações. O memorialista fixa seu olhar em situações, e opina com total liberdade frente ao ambiente onde exerceu atividades profissionais, partidárias, políticas. Pouco importa o viés ideológico escondido nas opiniões. Separá-lo é tarefa para quem ler. O perfil que ele traça do mais influente chefe político de Cajazeiras do seu tempo extrapola uma ingênua impressão de criança. É o retrato perfeito do coronel, a célula básica do sistema político dominante na República Velha. Aluno do professor Crispim Coelho, o menino Tota Assis assim viu o coronel Sabino Rolim num dia de eleição:
Cel. Sabino Rolim
"Ao redor da mesa eleitoral, rondava com seu fraque preto e o correntão de ouro atravessado na barriga do colete, preso a um relógio de ouro maciço, pois fortuna não lhe faltava, o Coronel Sabino que gritava de dedo em riste: - É Epitácio e mais ninguém. A eleição é para Epitácio, é Epitácio... Presume-se que alguns goles de vinho do Porto ou conhaque Macieira legítimo, a bebida da moda, influenciavam os arroubos políticos dos Chefes".
Última fotografia em vida!
Além de responsável chefe de numerosa família, Tota Assis desempenhou diferentes missões em Cajazeiras, militante que foi de muitas causas, sempre abraçadas com ardor, às vezes, até se indispondo com amigos, eventualmente, situados em campos opostos. Essa marca de sua personalidade e muitas outras afloram no seu A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi, que seus familiares reeditam agora em formato e edição mais bem cuidada para marcar as comemorações dos cem anos de nascimento do bonachão Antonio Assis Costa. Homenagem justa, merecida, oportuna. E útil para a história de Cajazeiras.
P S – Este texto está na contracapa da terceira edição do livro A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi, lançado no dia 20 de junho no Cajazeiras Tênis Clube.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jornal Nova Era

por Francisco Frassales Cartaxo
Nova Era é o nome do jornal oficial do município de Cajazeiras. Criado pela lei municipal nº 617, de 30 de janeiro de 1977, como veículo impresso “destinado a publicações periódicas de Atos do Poder Executivo Municipal Cajazeirense e de outras comunas, bem como assuntos de interesse da coletividade.” Assim diz a lei, cuja iniciativa foi do prefeito Antonio Quirino de Moura. O nome, Nova Era, nasceu de sugestão do ex-prefeito Celso Matos Rolim. A lei é assinada, também, pelo bacharel Heraldo Maciel Braga, um discreto servidor público, eficiente e correto, hoje aposentado. Instituído por Quirino em janeiro, no entanto só começou a circular em 17 de setembro de 1977, na gestão de Francisco Matias Rolim, eleito prefeito pela segunda vez em 1976.
O jornal Nova Era tinha o propósito de “circular quinzenalmente”. Ficou na intenção. Saía ao sabor da vontade do prefeito, não apenas com atos formais de divulgação obrigatória: leis, decretos, resoluções, editais, avisos, comunicados etc. Funciona também como meio de propaganda da administração e do gestor. Igual a muitos congêneres. Os primeiros números não exibiam maiores atrativos visuais ou de conteúdo. Com o passar do tempo, porém, as matérias começam a deslizar para a fronteira entre o legal e o irregular em face da legislação restritiva à personificação das ações com recursos públicos.
Professor Antonio de Souza e
o seu pseudônimo de Estephanio
   Na época de Chico Rolim, o Nova Era viveu um de seus momentos mais im- portantes, graças a colaboração do pro- fessor Antonio de Souza, instado a escrever textos so-bre a vida política, a-dministrativa, so- cial, religiosa do município, sempre com sua inegável seriedade. Antonio de Souza, que nos anos de 1920 man- tivera o jornal O Sport, produziu pa- ra o Nova Era matérias relevan- tes, ora sob o pseudônimo de Estephanio, ora de Fernando Fernandes. Os assuntos por ele abordados eram de grande significação, vistos hoje de uma perspectiva histórica. Assim, de periódico burocrático, de leitura monótona, o impresso da prefeitura passou a divulgar informações e comentários úteis à comunidade cajazeirense, com a chancela de quem se credenciara, como professor, funcionário público, político e jornalista, para falar de episódios e personalidades fundamentais da nossa história. O privilégio de contar com Antonio de Souza no jornal oficial do município ocorreu enquanto Chico Rolim governou Cajazeiras, e teve o apoio entusiasta de Marcos Pereira, então secretário do planejamento. Sem dúvida, o jornal Nova Era, com as características agora realçadas, prestou à história de Cajazeiras um serviço inestimável, além de economizar parcos recursos do município, pressuposto da sua criação.
        O jornal viveu diferentes fases, amoldando-se ao espírito e às inclinações do ocupante da chefia do executivo caja- zeirense. Na gestão de José Nello Rodrigues, por exemplo, o Nova Era ficou mais leve, de formato atraente, talvez mais profissional em seus padrões jornalísticos, mais parecido com peças de marketing político. Cometeu, porém, um equívoco lastimável ao interromper a sequência numérica que deveria ser permanente como sucede com os jornais oficiais. Em lugar do número puro e simples do exemplar, seguido do usual dia, mês e ano, passou a identificá-lo a cada ano, quebrando o sentido de órgão republicano. Assim agindo, deram-lhe dimensão anual, um passo, portanto, para vincular o jornal ao governo eventual e não ao município, instância constitucional da federação. 


Mais alguns releases do jornal:


domingo, 21 de abril de 2013

Netos do major Higino Rolim

Por Francisco Frassales Cartaxo
Higino Rolim é nome de rua em Cajazeiras. Paralela à Rua Epifânio Sobreira é uma ruela que vai do balde do Açude Grande à Praça Nossa Senhora de Fátima. Higino Gonçalves Sobreira Rolim e Epifânio Gonçalves Sobreira Rolim eram irmãos. Filhos do mestre-escola Francisco Gonçalves Sobreira e Josefa Maria da Conceição, so- brinha do padre Rolim. Higino estudou com seu tio padre. Mais tarde deu aulas de Latim no colégio famoso do seu tio avô, que fez seu casamento com a viúva Ana Antônia do Couto Cartaxo no sítio Prensa em 1886. Tiveram apenas dois filhos: Cristiano e Crisantina (Cartuxinha). Os netos foram 20, somados os 14 filhos dos dois casamentos de Cristiano e os 6 de Cartuxinha com Galdino Pires Ferreira. Dois dos netos do major Higino herdaram seu nome. O de apelido Gineto, o mais conhecido, está na fachada do Estádio Higino Pires Ferreira. E seria muito mais famoso se Bosco Barreto não tivesse melado judicialmente sua candidatura a prefeito de Cajazeiras, ensejando a eleição de Antônio Quirino em 1972. Não fora isso, Gineto teria sido o cara, muito embora o neto querido sempre foi o mais velho, médico Waldemar Pires Ferreira.
E o outro neto de nome Higino? O outro é o sexto dos 12 filhos do poeta Cristiano Cartaxo e Isabel Sales de Brito. Viúvo, Cristiano enamorou-se de uma linda menina de 16 anos. Amor roxo. Um poema impregnado de paixão todo santo dia... No final de 1921 casaram-se, ele com o dobro da idade da noiva. A cada ano faziam um filho. Higino, o sexto, nasceu em 1929, dois anos antes de morrer o avô.
Cristiano recebeu herança vultosa, mas era mão aberta. Formado em Farmácia, no Rio, em 1913, o pai, dono de imóveis urbanos e rurais, e de uma botica desde 1875, queria o filho à frente do negócio. Por isso, interrompeu o curso de medicina na Bahia. Errou. Erraram os dois. Cristiano era mais chegado a versos, a longos papos na farmácia. Ajudava os pobres. Em época de seca, de epidemias, de calamidade pública, trabalhava de graça. Na seca de 1942 já eram dez os filhos de Isabel, menores de 20 anos! Muita boca para alimentar. Receitas minguantes. Ativos fixos herdados sem a valorização e a liquidez de hoje. Cumpri-se então o ritual seguido por famílias católicas numerosas daquele tempo: um filho padre. Higino, coroinha dos padres salesianos, foi escalado, justo na penugem dos pentelhos...
Poucos anos depois, caminho quase igual percorreria a irmã Isabel. Ela foi até o fim da linha, fez-se freira salesiana, hoje aposentada. E feliz.
Higino, o neto, após 10 anos de estudo e tirocínio com os salesianos tomou a decisão traumática, acossado pela sua consciência: saiu do refúgio onde se abrigara dos pecados do mundo e das nefastas consequências da seca. Este mundo cá fora, no entanto, era cruel. Livre, mas perverso. Cheio de maldades, de trilhas sombrias, falsas veredas, emboscadas e bacamartes. E Higino, coitado, de baladeira na mão! Só. Sozinho no Recife de rios fétidos e lamacentos. A força moral e muita coragem o salvaram. Os sonhos adolescentes submersos no estudo, em rezas, mortificações no seminário afloraram de novo. Já homem feito, desajeitado em trajes civis, visitou Cajazeiras. Cadê a paixão cajazeirense dos doze anos? Sumiu. Cadê a prima por quem tanto suspirara? Casou. E as fantasias acasaladas pelo calor do sertão? O vento levou. Higino só redescobriu Cajazeiras, muito tempo depois, pelas mãos da filha Gardênia, casada com John Kennedy. Aí, já é outra história.

domingo, 14 de abril de 2013

Imagem de Epaminondas Braga

Por Francisco Frassales Cartaxo
José Epaminondas Braga nasceu no mesmo dia, no mesmo mês, no mesmo ano em que veio ao mundo Celso Furtado. Completaria 93 anos em 26 de julho deste ano. Nesse dia, dez anos depois, era assassinado, aqui no Recife, o presidente João Pessoa Cavalcanti de Al- buquerque. Coincidências, simples coincidências, mas Epaminondas as relembrava vez por outra quando jogávamos conversa fora, em encontros fortuitos ou programados. O último, programado, aconteceu no mês de outubro passado, em Campina Grande, quando fui visitá-lo. O papo já andava entremeado de pausas, de reticências, a memória traiçoeira a baralhar datas e nomes, episódios nublados no enfado do longo caminho percorrido. Naquele dia, ele fez questão de oferecer um café, quase almoço, supervisionado por Mércia, sua filha, a cuidar com desvelo e carinho do pai, desempenhando assim o papel de enfermeira e anjo.
Epaminondas era um homem preso a sua terra como poucos, embora tenha vivido muito tempo em Campina Grande, para onde foi em busca de ampliar seus negócios numa época de grande efervescência desenvolvimentista, a Rainha da Borborema transformada em polo comercial com ensaio de industrialização, a verdadeira capital econômica da Paraíba, já vestida no manto de centro de ensino regional. Epaminondas alcançou no alto da serra o merecido sucesso empresarial e se fez líder ao assumir formalmente o comando de entidades de classe. Nesse tempo, muita gente de raízes sertanejas deslocou-se para Campina, os Braga entre muitos. Poucos esqueceram suas origens. Epaminondas fazia questão de proclamá-las. E com que satisfação! Seus olhos miúdos e vivos a sair de órbita, um brilho forte quando o assunto era Cajazeiras. Certo dia, fizemos inveja a Tânia Bacelar. Isso mesmo, a economista Tânia Bacelar, considerada por muitos como herdeira de Celso Furtado, na capacidade de formular políticas públicas e estratégias regionais de desenvolvimento.
Conto como foi. Tânia e eu fomos a Campina Grande participar de evento da Regional Nordeste II, dos bispos católicos, ela escalada como conferencista. Lá encontro Epaminondas, firme, garboso, de terno e gravata. Entusiasmou-se ao ser apresentado à economista famosa, que ele conhecia apenas através da mídia. O miolo da conversa era Cajazeiras, cada um de nós mais animado com as novidades da terra. Tânia ali, quieta, meio espantada com aquela cena, duas gerações saltitantes, feito pinto em xerém, a irradiar o mesmo entusiasmo. Nascida e criada na praia de Boa Viagem, às margens do Capibaribe, Tânia é casada com um sertanejo de Sousa, Alcindo Rufino de Araújo, que, lamentavelmente, não cultiva o hábito de refazer as energias no calor do sertão... Daí seu espanto.  Ela ficou impressionada com a vitalidade de Epaminondas e mais do que isso, com seu interesse por temas voltados para um futuro muito além de seus passos, ele já próximo do cimo da montanha, como diria o poeta Cristiano Cartaxo.
Epaminondas e Celso têm o mesmo signo, mas são muito diferentes. Celso confessou-se um cacto, talvez na lembrança de Pombal, onde nasceu. Epaminondas em nada parecia com um cacto, expansivo, jovial, mesmo quando, tendo vencido a barreira dos 90 anos, carecia dos cuidados diuturnos de Mércia, sua filha, mais anjo do que enfermeira, a misturar-se agora na última imagem que guardo de seu pai. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Cajazeiras e São José de Piranhas

Por Francisco Frassales Cartaxo
São José de Piranhas = Praça Domingos Leite
   A história de Cajazeiras está ligada a de São José de Piranhas. Não fa- lo da história re-cente, mas do passado, da origem dos dois municípios sertanejos. Por isso não me refiro à cidade atual, (ex-Jatobá), que su- bstituiu o núcleo urbano inundado pelo Açude En- genheiro Ávidos. As ligações do presente são importantes, porém, no passado elas foram muito significativas e entrelaçadas em vários campos: na política, na economia, na religião, nos laços de família. De forma que, é impossível compreender a evolução inicial de nossa história sem conhecer a conduta de personagens que marcaram a formação desses municípios. Basta mencionar dois momentos simbólicos para tornar mais clara a afirmativa.
     A primeira feira semanal, ocorrida em 1848, quando Cajazeiras não passava de uma povoação integrada ao território de Sousa, da mesma forma que Santa Fé e São José de Piranhas, onde, aliás, a nascente Cajazeiras provia seu abastecimento. Só a partir daquele ano, com a feira, foi o povoado criando as condições para expandir-se, graças à visão, ao esforço de suas lideranças, tendo à frente o comandante Vital Rolim, o tenente Sabino Coelho e o padre Inácio Rolim. Naquele longínquo 1848, a feira semanal era um acontecimento de muito mais repercussão do que a simples compra e venda de mercadorias, como sucede hoje. A feira servia para essas trocas, é claro, mas se prestava também a um sem números de outros papéis. Ali se faziam presentes fazendeiros, agricultores, mascates, escravos, vendedores de todos os tipos de mercadorias e animais existentes na redondeza. E poetas repentistas. Em dia de feira fatos e boatos circulavam de boca em boca, como atualmente se propagam em rádio, televisão e jornal. Fechavam-se acordos políticos e se encomendavam crimes de morte. Quantos corpos ficaram inertes no chão de feiras... Nas feiras, prepotentes delegados e seus asseclas a serviço de chefes políticos do partido no governo exerciam seu irresistível poder de pressão em tempo de eleição. Por tudo isso, a feira era o acontecimento. Pois bem, ao instituir a feira em Cajazeiras, as relações com São José de Piranhas e Santa Fé começaram a tomar nova feição.
Um segundo momento simbólico é de natureza eleitoral. A autonomia político-administrativa de Cajazeiras, em 1863, veio com a incorporação ao novo município dos distritos de São José de Piranhas e Santa Fé. Assim, a jurisdição eleitoral com sede na vila de Cajazeiras ampliou-se e adquiriu, por imposição legal, muito mais heterogeneidade, alterando a correlação de forças na disputa pelo poder local, antes restrita aos grupos cajazeirenses aglutinados no Partido Liberal e no Partido Conservador. Portanto, sem conhecer bem as nuanças desse intrincado momento de nossa história, insisto, é impossível desvendar, sem fantasias, episódios nebulosos, tais como o conflito armado do dia 18 de agosto de 1872, quando foi morto o tenente João Antonio do Couto Cartaxo, chefe do Partido Liberal.
Deusdedit Leitão deixou livros e textos esparsos acerca da história dos dois municípios, que muito ajudam a esclarecer nosso passado. Hoje, estudiosos de São José de Piranhas refazem essas trilhas históricas e lançam mais luz nessa nebulosa fase, à frente o historiador Messias Ferreira Lima, coadjuvado por outros mais jovens, como o professor Francisco Pereira, Marconi Gomes Vieira, para citar apenas dois.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O fuzil do major Higino Rolim

Por Francisco Frassales Cartaxo
Cresci vendo um monte de rifles na casa de meu pai. Rifles e munição guardada em velho saco de estopa. Tantino gastava balas com marrecas, pato e ga- linha d’água. Os ri- fles papo-amarelo, le- ves, cano curto, fá- ceis de transportar, eram os preferidos dos cangaceiros. E o fuzil? Ao tentar usá-lo quase fui ao chão com o sopapo da coronha no ombro. Tantino gostava de experimentar o fuzil em jornadas de tiro ao alvo no sítio Prensa e outros lugares próximos a Cajazeiras.
    Essas armas foram herdadas por Cristiano Cartaxo do seu pai, o major Higino Rolim. Cada uma tinha sua história que se foi apagando da memória ao longo dos anos. Menos a história do fu- zil. Segundo meu pai, ele fora usado por Romeu Menandro da Cruz, que trabalhava na farmácia do major Higino, no dia em que Sabino Gomes atacou Cajazeiras. Romeu teria atingido um dos companheiros de Sabino, que morreria mais tarde. Meu pai sonhava em ver aquele fuzil exposto num museu de preservação de lembranças históricas. Boas ou não. O golpe de 1964, no entanto, deu ao sargento Barbosa de Carvalho autoridade suficiente para requisitar, em nome do Comando Militar, o velho fuzil F-8, quem sabe, para compor o estoque do Tiro de Guerra...
Por que o major Higino tinha essas armas? 
Coronel Sabino Rolim
Era o costume da sua época, tempo de milícias privadas, de força policial im- potente, dos coronéis donos de arsenais e de cabras arregimentáveis para a defesa de seu patrimônio material e, também, para ostentar poderio político na conquista e controle do poder local. O major Higino Gonçalves Sobreira Rolim, nascido (1852) em Lavras, integrava o Partido Liberal, chefiado em Cajazeiras pelo Comandante Vital Rolim e, mais tarde por seu filho, o coronel Sabino Rolim. O major Higino foi vereador, prefeito, deputado estadual, antes e depois de proclamada a República, tendo sido ainda promotor público, segundo Deusdedit Leitão, como decorrência de sua condição “rábula ativo afeito aos meandros das leis”.
Apesar dessa incursão na política, o major Higino se enquadra melhor na vertente intelectual da família. Filho do professor cearense Francisco Gonçalves Sobreira e Josefa Maria da Conceição, (sobrinha do padre Rolim), portanto, sobrinho-neto do padre Rolim, com quem aprendeu grego, latim, francês e passou a ensinar no famoso colégio. Em dados biográficos publicados na década de 1950, Deusdedit Leitão, referindo-se ao major Higino Rolim, afirma:
“Notabilizou-se pelos seus conhecimentos da língua grega, cuja cátedra ocupou em substituição ao Padre Rolim. Versado em literatura, não se cansava de saborear Virgílio, Horácio ou o opulento Homero que costumava recitar para deleite de seus pupilos”.
Antiga rua Higino Rolim em Cajazeiras - PB
     Recitava na sala de aula e re- ceitava na Botica! Foi o primeiro farma- cêutico prático em Cajazeiras, chance- lado por ato formal do imperador Pedro II. Por isso, o major Hi- gino era chamado de “doutor Gino”. Ou “tio doutor”, como a so- brinha (que saudade!), Marilda Sobreira, cos- tumava tratá-lo, ao recordar episódios an- tigos, vividos por seu pai, o major Epifânio Sobreira, aquele do casarão onde hoje funciona o CAPS II, ao lado da parede do Açude Grande.
Não conheci o major Higino. Ele morreu em 1931, perto de completar 79 anos. Sua lembrança, porém, sempre foi uma constante em minha vida de criança, à vista dos rifles papo-amarelo e do fuzil histórico. E de uma espada manchada de sangue. Espada? A espada fica para mais adiante.