domingo, 13 de maio de 2012

Imprensa antiga de Cajazeiras (1)

por Francisco Frassales Cartaxo
Gazeta do Alto Piranhas completou 13 anos de existência, em janeiro, e José Antônio festejou o número 700, semana passada. Merecidamente. Nunca se tinha chegado tão longe em nossa terra, 700 semanas seguidas sem falhar uma sequer! Um feito. Um feito significativo, sobretudo, pelo declínio universal do jornal impresso, substituído a passos rápidos por novos meios de comunicação impulsionados pela tecnologia, a cada hora mais inovadora, a seduzir o mundo inteiro. E de fácil e cômodo acesso, mesmo a usuários desajeitados no manuseio do computador e dessas maquininhas adquiridas com sofreguidão pelos consumidores de novidades. Esse processo não para. Ainda assim, os jornais impressos resistem, alteram o formato, mudam o conteúdo, mais opinião/menos notícia, essas coisas que a gente lê todos os dias. Centenários jornais impressos criam seus sítios eletrônicos para acompanhar, quem sabe, o cortejo que levará ao túmulo o secular jeito de fornecer notícia e formar opinião.
Mas não é dessa realidade que desejo falar. Hoje o foco é outro. E começo pela lembrança do sucesso que foi a circulação simultânea, na década de 1920 em Cajazeiras, dos jornais O Rio do Peixe, O Rebate. É verdade que só o primeiro teve vida longa. Por quê? Porque a diocese de Cajazeiras chamou a si a responsabilidade de patrociná-lo. E a diocese de Cajazeiras era então uma potência que abrangia os vales do Sabugy, Espinharas, Piancó, Piranhas e Rio do Peixe, talvez mais de um terço do território da Paraíba, o grande sertão produtor de algodão, base da economia estadual naquele tempo.
Quem estuda a história da imprensa cajazeirense, limita-se quase sempre a citar oito jornais e a revista Flor de Liz, que circularam entre 1920 e 1950, todos nós indo beber na mesma fonte: um artigo do professor Antônio José de Souza, escrito em outubro de 1974, e incluído em livro publicado pela UFPB em 1981. Ele menciona, além de Flor de Liz, os seguintes jornais: A Alvorada, Pátria Jornal, O Rio do Peixe, O Rebate, O Sport, A Ação, Estado Novo e Correio do Sertão.
A lista não é completa. Ao longo das três décadas, outros jornais nasceram e morreram. O professor Antônio de Souza deixou de incluir, por exemplo, A Hora, jornal partidário criado em 1935, engajado na campanha do coronel Joaquim Matos, candidato vitorioso na primeira eleição direta e secreta para prefeito havida em Cajazeiras. O mestre Antônio de Souza inclui, como 6º jornal da sua lista, A Ação, “substituindo O Sport”, em 1929. Portanto, A Hora escapou de sua pesquisa. Tampouco Antônio de Souza citou o jornal O Observador. Embora tenha limitado sua análise até 1950, referindo-se ao mensário da diocese Correio do Sertão, ele escreveu: “Esse jornal continuou circulando durante quase toda a década de 1950-1960, encerrando-se, com o seu desaparecimento, o ciclo do jornalismo” cajazeirense. Ora, O Observador circulou em meados dos anos de 1950. Por isso, dele falarei em próximo artigo.  
Abaixo o classificados do Jornal Sport:



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Dr. Waldemar Pires Ferreira

por Saulo Péricles Brocos Pires Ferreira
Dr. Waldemar Pires Ferreira nasceu em Cajazeiras, na Rua Padre Rolim, em 9 de fevereiro de 1911. Era o primogênito do casal Galdino Pires Ferreira (Major Galdino) e Crisantina Pires Sobreira Cartaxo Rolim (D. Cartuxinha). Seus avós paternos eram por parte de pai, Lindolfo Pires Ferreira (Major Lindolfo) e Leopoldina Bandeira Pires Ferreira (Mãe Maroca), o primeiro natural de Umari-PB, e a outra pernambucana da Ilha de Itamaracá que residiam em Sousa. Seus avós maternos eram Hygino Gonçalves Sobreira Rolim (Major Hygino) e Ana Cartaxo Rolim (Mãe Nenzinha) ambos cajazeirenses. Eram seus irmãos: Hygino Pires Ferreira (Dr. Gineto), Graciette Pires Maia (D. Ciete), Diva Pires Cordeiro, Maria Antonieta Pires (Tizinha) e Dr. Lindolfo Pires Ferreira (Dr. Lineto), com exceção do último, todos já falecidos.

Aprendeu suas primeira letras com seu pai, após o trabalho, em que me dizia que a boa aprendizagem começa em casa. Posteriormente estudou na escola do Prof. Crispim Coelho e outros educandários em Cajazeiras, que entre outras professoras existiu, segundo me contou, uma de nome D. Alcides, que ele muito apreciava e sabedor de que seria solteira, segundo me contou, chegou a pedi-la em casamento com menos de dez anos, ocasião em que foi severamente repreendido conforme os severos costumes da época. Seus contemporâneos nesse período que lembro mais foram, além de seu irmão Gineto, Dr. João Guimarães Jurema (futuro procurador da República) Antonio Guimarães Moreira, Prof. de Direito da UFPB, Mons. Vicente Freitas e Antonio da Costa Assis (Tota Assis). Depois estudou em diversas escolas de centros mais adiantados, concluindo Humanidades (o atual segundo grau) no Lyceu Paraibano, onde, dentre outros, foi colega do futuro governador Ernani Satyro.

Prestou vestibular e foi aprovado na Faculdade de Medicina da então recém formada Universidade do Brasil, em que os cursos superiores do Rio de Janeiro foram cingidos em tal nome. Sua faculdade, ainda existente, situa-se na Praia Vermelha, então o mais prestigiado centro de medicina do País. No cursar dessa academia, assistiu ao desenrolar da Revolução de 1930 em seu principal cenário.

Formou-se em 1934, sendo, com 23 anos, o mais jovem da turma. Depois dedicou-se a preparação e defesa de sua tese de doutorado, que versou sobre tuberculose, naturalmente na fase pré-antibiótico. (Ele afirmava que antes do antibiótico, os médicos eram mais expectadores que curadores dos pacientes; este tinha trazido mais dignidade à profissão de médico). Sua tese de doutoramento foi elogiada e publicada pelo Governo do Estado da Paraíba.

Entre seus professores destaca-se o eminente Dr. Miguel Couto que dá nome a um dos maiores hospitais do Rio de janeiro. Entre seus numenrosos colegas contemporâneos cito Dr. Rinaldo De Lamare (Pediatra), Jorge Marssilac (que depois seria fundador do Hospital do Câncer), Pedro Bloch (futuro dramaturgo), Arthur da Távola (futuro Senador) e Noel Rosa (compositor, que abandonou o curso).

Embora reconhecido e solicitado para prestar seus serviços na Capital Federal (que todos os anos visitava), decidiu voltar para seu Estado, por ter a convicção que sua terra precisava mais de seus serviços que a Capital Federal. Tendo a noção que Cajazeiras já se destacava na medicina daqueles tempos, optou por vir a prestar seus serviços na terra de seu pai, Sousa, aonde residia sua avó materna. Desse tempo, tem-se a notícia que cunhou o nome de "Cidade Sorriso" para Sousa, como chamam-na até hoje, por decliná-lo em um discurso proferido num 7 de setembro, enquanto lá residia. Como existia o transporte ferroviário daquela época, utilizava-o para prestar seus serviços e participar da vida social na região. Tem-se notícia que dançava bem, especialmente o tango. Tanto que mais tarde, recém-casado, visitou Buenos Aires, sua única viagem além fronteiras.
Récem-casado

Falecida sua avó em Sousa, seus pais o chamaram para vir desempenhar suas funções em Cajazeiras, e lhe ofereceram o consultório medico que usaria até o fim de sua carreira, à Praça João Pessoa nº 40, onde ele trouxe o primeiro laboratório de análise (naqueles tempos o médico deveria ser multifunção) e pouco depois o primeiro aparelho de Raios X da região, de 50.000 amperes. Dois avanços enormes, se considerados à época. Nesse tempo, começou a trabalhar onde seria sua primeira casa: o Hospital Regional de Cajazeiras, recém fundado. Também naquela casa, viria a conhecer, visitando um doente, uma parenta sua que viria a ser sua futura esposa, Iracles Rolim Brocos, com que viria após se casar, ser conhecida na cidade como Ica Pires, que dispensa apresentações.

No HRC, Dr. Waldemar viria a desempenhar todas as funções destinadas a um médico: diretor, vice-diretor e, principalmente, médico plantonista, cirurgião e clínico, juntamente com outros ícones da nossa Medicina, que fizeram de Cajazeiras, o centro de referência e excelência em toda a região, inclusive Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e todo o oeste da Paraíba, em que pacientes eram para cá encaminhados - diferentemente do que se sucede hoje, as ambulâncias vinham. Estava entre ilustres colegas, como Otacílio Jurema, José Jurema, João Isidro, Celso Matos, Deodato Cartaxo, Sabino Rolim Guimarães, Julio Bandeira e Epitácio Leite, alcançando a próxima geração de médicos, que cito Iemirton Braga, Francisco Guimarães e Deusdedt Leitão, tendo a certeza de cometer omissões imperdoáveis. Esses, e os que não me recordo, fizeram a diferença e colocaram Cajazeiras num patamar invejável no sertão da Paraíba e circunvizinhanças, somente seria superado pelo Cariri Cearense depois de décadas.

Depois de casado, foi residir por alguns anos na casa de seu falecido sogro, próximo a antiga Estação Ferroviária e perto do HRC, que o tornava, abstêmio e sem outros vícios, sempre à disposição daquela casa de saúde. Na casa nasceram seus dois filhos com Ica, Jeanne em 1954, e eu em 1956: Saulo Péricles (Pepé - apelido herdado de meu tio Péricles falecido em 1952, grande amigo do Dr. Waldemar). Posteriormente a família se mudou para a praça Galdino Pires, vizinho a seus pais, onde resiram, quase todo tempo, até o falecimento de Ica, em 1979. Foi sócio fundador do Rotary Club de Cajazeiras, e presidiu o Cajazeiras Tênis Clube na década de 1950.

Já na década de 1960, ou no final da anterior, foi admitido como medico no SAMDU, posteriormente mudado de nome para INPS, que mantinha nesta cidade um posto de saúde funcionando 24 horas para serviços ambulatoriais e de emergência, onde foi plantonista até se aposentar compulsoriamente aos 70 anos em 1981, continuando no HRC até o começo da década de 90 em que logo depois desenvolveu a Doença de Alzheimer, que acomete muitos nossos familiares, e que haveria de matá-lo em 20 de outubro de 1996.

Após o falecimento de Ica, casou-se com Ilma Rodrigues, com quem teve um filho: Waldemar Pires Rodrigues Júnior, Hoje com 30 anos.

Tem como netos Mariana Pires Borsoi, nascida em 1981, arquiteta; Gabriel Pires Borsoi, em 1982, arquiteto, filhos de sua filha Jeanne com o também arquiteto Marco Antônio Borsoi, ambos nascidos em Recife e arquitetos; Lívia Pereira Brocos Pires nascida em 1982, dentista, Waldemar Pires Ferreira Neto, nascido em 1983, Mestre em Ciências da Computação, e Marina Pereira Brocos Pires, nascida em 1988, estudante de Farmácia, filhos de Saulo Péricles com a pedadoga Delmira Pereira Brocos Pires, todos cajazeirenses.

Resumidamente esta seria a vida de Dr. Waldemar Pires, mas existem muitos fatos, em que por se tratar de um elogio a sua vida e obra, não posso deixar de expor.

Primeiro uma rara qualidade, que por muito tempo foi tomada como defeito, o de não saber cobrar por seu trabalho: agora que se pode ter uma visão menos imediata, ele tinha compromisso apenas com a cura dos seus pacientes, sendo o pagamento uma mera e conseqüência sem tanto valor como o que se dá hoje. Decerto, às vezes, quando o paciente não dispunha de recursos, ele chegava a dar o dinheiro para o medicamento, sem nunca ter cobrado algo em troca, como por exemplo apoio político, como o fizeram vários de seus colegas, infelizmente prática estabelecida, de uma forma mais ou menos velada, até hoje.

Outra faceta me meu pai era seu proverbial esquecimento: mas, característica familiar decorria de algo me dito por um primo meu da nossa família Pires: somente esqueço o que não é importante. Apesar de não saber onde estaria seu carro, seus óculos (tinha vários reservas) não se conhece ele ter esquecido uma pinça, tesoura ou outro objeto em um paciente seu, muito menos ter errado sua medicação. No final de sua carreira, ante as novas marcas e medicamentos disponíveis, ele elaborou um “resumo da medicina” onde havia a doença e o medicamento correspondente, pois quando ele se formou, era o tempo de fórmulas manipuladas, em que ele era expert, e não as marcas comerciais.

Isso, sem contar seu excepcional saber cultural em vários campos e níveis, que eu, por herança, tento acompanhar sem ao menos sonhar em dispor desta cultura, em que entre outros, recitava "Os Sertões" de Euclides da Cunha de cor em longos trechos, além de vastíssimo conhecimento em várias outras áreas: foi professor no Diocesano de Física, área bastante distinta da Medicina. E quando da fundação da UFPB, foi convidado a ser professor, que recusou para não deixar sua terra e seus pacientes. Que foi candidato a vereador contra sua vontade pessoal, não fez campanha, e eleito com uma votação consagradora para a época, não assumiu, pois não era seu território. Bastante diferente de alguns políticos, em que é o poder pelo poder.

Em resumo, termino esta elogio com a frase lapidar de seu amigo e compadre João Claudino Fernandes: "Um homem que só nasce de 100 em 100 anos". Estamos esperando o próximo, e por enquanto fica esta singela homenagem desse filho que lhe deve mais do que tudo.

Obrigado, meu pai!




Convite de formatura Dr. Waldemar Pires Ferreira

 O Doutorando  


 Capa do convite
 Capa interna do convite
 Logradouros da universidade






 Ilustração do convite
 Reitor
 Paraninfo
 Homenagem
 Homenagem
Homenagem póstuma especial

Quadro de formandos, Dr. Waldemar no destaque



Código de Posturas de Cajazeiras

por Francisco Frassales Cartaxo
       Não é de hoje que os municípios adotam leis dis- ciplinadoras de convivência das pessoas nos espaços públicos, das relações entre as pessoas e destas com o poder público. São regras de comportamento para cidadãos, empresas, instituições baixadas no pressuposto do interesse coletivo. O Código de Posturas é um instrumento próprio para discriminar o que se pode ou não fazer, como fazer ou deixar de fazê-lo nos perímetros urbanos em benefício do bem estar da coletividade. Eles descem a minúcias incríveis. A lista de proibições, vedações à conduta das pessoas chega a ser cansativa. Às vezes, até parecem bizarras. As leis que aprovam esses códigos são gigantescas, com dezenas de capítulos, centenas de artigos, milhares de alíneas, ocupando páginas e páginas dos Diários Oficiais. Passei a vista num código de posturas, aprovado há três anos, com mais de 700 artigos. Um horror.
      Por que falo disso agora? Porque recebi cópia de antigo Código de Posturas de Cajazeiras, remetida via internet graças à gentileza de Argemiro Moreira, neto de Abel Moreira, um dos ve- readores com assi- natura naquele docu- mento. O homenzarrão Abel foi o primeiro político da família Moreira a exercer mandato eletivo. Nessa época o coronel Joaquim Matos governava Cajazeiras, eleito que foi em 1935, pelo voto direto e secreto, na primeira eleição municipal realizada após a criação da Justiça Eleitoral. Aliás, uma importante conquista democrática da Revolução de 30. O Código, aprovado pela Lei nº 13, de 13 de dezembro de 1936, possui 22 capítulos, 148 artigos, sendo que a maioria se refere a proibições.
         
       
   Vejamos alguns exemplos de restrições. Na pintura de prédios, “Não será permitida a pin- tura da fachada de cor preta ou berrante”. No ca- pítulo “Das con- vivências urbanas”, diz-se que é ex- pressamente proi- bido, entre muitas outras ações, “a- marrar animais nos postes, em janelas de casas urbanas, nos postes, grades ou árvores”; “correr a cavalo em disparada pelas ruas da cidade”; e até mesmo “estalar chicotes pelas ruas da cidade”. Quanto ao “Decoro público”, é vedado “soltar bombas e busca-pé no centro da cidade”. O artigo 137 das “Disposições transitórias” reza: “É proibido queimar fogos e foguetões, depois das 22 horas, salvo licença da Prefeitura, que designará o local para esse fim.” Pelo visto, o ex-prefeito Carlos Rafael só não incorreria nas penas da lei, se o Código estivesse em vigor em 2011, por causa da ressalva dando à prefeitura a atribuição de autorizar o foguetório... Nem as meninas da zona escaparam da dureza do Código. Elas foram contempladas no artigo 138: “As mulheres de vida livre não poderão habitar as ruas destinadas a domicílio familiar”. Parágrafo único: “Cabe à Prefeitura designar uma ou mais ruas para localização do meretrício”.
Quem assina o Código?  Os oito vereadores com assento na câmara municipal em dezembro de 1936: Cristiano Cartaxo Rolim, presidente, Otacílio Guimarães Jurema, secretário, Cândido Simões dos Santos, 2º secretário, Júlio Marques do Nascimento, Galdino Pires Ferreira, Sebastião Bandeira de Mello, José Gonçalves de Assis e Abel Moreira da Nóbrega. São oito figuras do mundo político cajazeirense do século 20, cuja leitura dos nomes, ora citados, certamente vai provocar lembranças em netos, bisnetos e até mesmo em algum filho ainda vivo, como é o caso do autor destas linhas, filho de Cristiano Cartaxo.