quarta-feira, 30 de maio de 2012

Entrevista com Chico Rolim: Ivan Bichara foi o melhor governador até hoje para Cajazeiras. O pior foi João Agripino



Sem rodeios e à vontade, Chico Rolim inicia asseverando que o ex-governador Ivan Bichara: “Foi o melhor governador até hoje para Cajazeiras, houve depois outro grande benfeitor da nossa cidade, o ex-governador Wilson Braga. O pior foi João Agripino”. Mais vamos à entrevista.
Blog: Mas quais foram as obras que justificam este seu reconhecimento ao Ivan Bichara como o melhor governador para Caja- zeiras?
Chico Rolim: Ah, dizer todas as obras de Ivan Bichara não é fácil, pois foram tantas que a gente tem que parar para pensar e você parece que está com pressa de terminar esta entrevista! Mas de pronto falo do Canal do Sangradouro do Açude Grande que resolveu o problema de inundação de muitas residências, além do seu valor urbanístico, foi muito importante esta obra. Outra obra importantíssima foi o serviço de esgoto da cidade que fez com que, quando, assumi a prefeitura encontrei a cidade parecendo um vulcão de tantos buracos que a Cagepa deixou, mas Ivan Bichara não mediu esforços para me ajudar a resolver o problema. Ah, é muita coisa!
Sim, aonde hoje é o A- tacadão do Deca, eu construí com a ajuda do Ivan Bichara quatro galpões, cada um com quatro mil m2 de área coberta com uns duzentos boxes para os feirantes. Seria o maior CEASA da Paraíba, pelo menos, à época, mas, infelizmente, apesar de praticamente concluído, o prefeito seguinte cometeu o crime de não levar o projeto adiante com o bobo ar- gumento que aquilo era muito para Cajazeiras e com a autorização da câmara de vereadores vendeu e segundo as más línguas o dinheiro arrecadado tomou rumo ignorado.
Fugindo um pouco ao as- sunto, vou te contar uma história que mostra bem o amor de Ivan Bichara pela sua cidade natal. Certa vez, num final de semana fui para o Sítio da Serra da Arara do meu sogro e fiquei sozinho e fiz uma relação de ben- feitorias que Cajazeiras pre- cisava. Fiquei tanto tempo sem dar atenção a ninguém que até a Teresa (sua esposa) reclamou da minha falta de atenção a todo mundo, é, que, como falo muito, eles estranharam o meu comportamento de quem estava fora do mundo.
Bom, em João Pessoa a- presentei a Ivan Bichara a enorme relação das ne- cessidades de Cajazeiras e ele em tom de brincadeira me disse que se ele fizesse tudo aquilo que eu estava pedindo, ia terminar na cadeia. Mas foi um excelente governador para Cajazeiras.
Sim, você falou que o Frassales falou de mim numa crônica nesta semana no Gazeta do Alto Piranhas. Verdade que Ivan Bichara fez muito, mas Cajazeiras deve muito ao seu secretário de planejamento que era o Frassales. Olha, eu corria para João Pessoa e lá encontrava um grande aliado que era o Frassales, não media esforços para me ajudar na ânsia que tinha de fazer muitas coisas em Cajazeiras. Não tinha tempo ruim e nem dificuldades para Frassales, ele adiantava as minhas solicitações com muita presteza. Cajazeiras também deve muito a ele.
Já falei muito, mas esqueci uma coisa muito importante. Se não fosse o governador Ivan Bichara eu não tinha sido eleito pela segunda vez prefeito de Cajazeiras, e Cajazeiras não teria as obras do meu último mandato de prefeito. Explico. Quando em 1969 ao fim do meu mandato de prefeito, eu, pes- soalmente, estava numa situação financeira de penúria. Meus negócios iam mal e para sair do buraco, vendi o prédio do Armazém Paulista na Rua Epifânio Sobreira e a minha casa da Rua Victor Jurema para Luís Paulo, comerciante, que vou até lembrar uma coisa. Os mais novos não sabem como naquele tempo as coisas eram diferentes. Luís Paulo não me deu um centavo em espécie, dei uma relação com os meus débitos junto a terceiros. Fui embora pro Maranhão pra recomeçar a vida comercial já que eu tinha lojas por lá. Meses depois voltei, chequei a relação de pagamentos que ele fez e só então foi providenciada a escritura de venda da casa. Não dei um recibo sequer, foi tudo na confiança.
Quase oito anos depois, o prefeito Antonio Quirino e Nias Gadelha me aparecem em São Luís insistindo para eu ser candidato a prefeito. Não quis nem conversa apesar das ponderações dos dois amigos. Mas a pressão para eu voltar era grande. Dias depois foi o próprio governador em pessoa, Ivan Bichara, que me liga me pedindo para eu ir falar com ele em João Pessoa. Foi quando aceitei ser candidato, principalmente quando ele disse: “Rolim, nós seremos dois governadores de Cajazeiras!”
Blog: Bom, pra terminar porque João Agripino foi o pior governador para Cajazeiras?
Chico Rolim: Olha vou ter aproveitar e falar de outra coisa boa que Ivan Bichara trouxe pra a gente que foi a agência do Banco do Estado, já João Agripino agiu exatamente o contrário. Quando ele assumiu o governo já estava criada a instalação de uma agência do banco para Cajazeiras, isso logo no início do governo, e ele mudou para Catolé do Rocha que era a sua cidade natal.
João Agripino deve a sua eleição de governador totalmente a Cajazeiras, onde ele teve uma maioria de 3083 votos enquanto no estado foi de 2926 votos, ou seja, sem a votação de Cajazeiras o governador teria sido Rui Carneiro. Isso rendeu muito, fui acusado de ter desviado dinheiro da prefeitura pra campanha de João, mas como é uma história comprida, deixo pra outro dia.
Aí veio aquela história de “Cajazeiras minha noiva” que noiva coisa nenhuma! Ele não fez quase nada por Cajazeiras. Assim ligei-ramente só me lembro do canal que ele fez dentro da área do Colégio das Freiras, e a maternidade do hospital, mas é tão pouca coisa para cinco anos de governo.
Como governador, João Agripino era comigo, e claro para Cajazeiras, igual a uma cobra, tudo que eu pedia ele balançava a cabeça para as laterais, dizendo “não”; uma vez, brincando com ele, eu o disse que ele deveria ser como lagartixa, que balança a cabeça pra cima e pra baixo dizendo “sim” (risos).
Bom eu me cansei de ir ao Palácio, o homem era uma cobra só dizendo não, me cansei e não fui mais.
Vou aproveitar agora até para fazer uma ressalva a um assunto que o Zé Antonio escreveu no seu jornal (a crônica “Em Cajazeiras, qual seria a grande obra de Ricardo Coutinho?” de 29/07/2011), vou falar  no assunto até porque o Zé An- tonio é o historiador de Cajazeiras e sabe muito e escreve muito e que é muito importante para nós. Mas ele cometeu um erro quando escreveu uma história que aconteceu lá em casa quando João Agripino me fez uma visita.
Como eu falava não fui mais ao Palácio e certo dia vem Wilson Braga que era deputado federal e João Agripino a Cajazeiras. Como eu não vinha satisfeito com o governador “cobra” não fui ao aeroporto recepcioná-los. Ao chegarem foram direto para o Colégio Estadual, de lá Wilson me ligou avisando que o governador estava em Cajazeiras e que ele estava me esperando. Falei que não iria se ele quisesse conversar comigo que viesse até a minha casa onde eu estava convalescendo de uma hepatite que tinha me acometido. Na verdade tinha chegado neste dia do Sítio Serra da Arara onde tinha me recolhido há mais de mês, cuidando da doença, foi nesse tempo que sem fazer nada, engordei e fiquei com os 75 quilos que tenho até hoje.
De lá foram à Maternidade do Hospital Regional e Wilson torna a me ligar e eu repeti a mesma história. Wilson me disse “Chico venha aqui o homem é o governador do estado!”. E eu respondi se ele era o governador do estado, eu era o governador da cidade, portanto, que eles me viessem até a minha casa.
Bom, não teve jeito, vieram até a minha casa na Rua Victor Jurema, no meu quarto onde eu estava cuidando da doença.
- Chico, você nunca mais foi ao Palácio!, disse o Wilson provocando.
Respondi que não fui mais por tinha me cansado de ir e não ser atendido. E Wilson provocando e João Agripino calado. Ele era objetivo e, portanto, de pouca conversa, calado, esticando as pregas do queixo, quando se meteu na conversa:
- Essa conversa de vocês não me interessa muito. Chico, você vai ou não a- poiar Epitácio para prefeito?
E começou este diálogo:
- Eu nunca falei que não iria apoiar Epitácio, meu primo e amigo. Agora não vou fazer campanha, pois estou sem dinheiro para gastar com ele, não posso fazer o que fiz na sua campanha que gastei o meu dinheiro e agora não tenho.
- Isso não é problema. Dr. Ginete arruma cinco milhões, Romualdo Rolim e Otacílio Campos arrumam mais dez milhões...
- Governador, basta os cinco milhões do Dr. Ginete, se precisar mais eu lhe procuro.
- Bom, posso mandar Wilson anunciar um comício hoje à noite com as nossas presenças e a do Epitácio?
- Perfeitamente, com dinheiro tudo bem!
O comício foi na Praça Camilo de Holanda, mas era tanta gente, olha. tinha gente de lá até no posto que era de Antonio da Bomba, hoje de Zé Cavalcante. Um mar de gente!
Eu até vou parar um pouco a história pra contar outra da Teresa (esposa). Tua mãe estava no meio do povo quando ouviu três moças conversando, uma delas comentou: “Vixe, como ele voltou bonito!” e rindo Teresa me disse que não tinha tacado a mão no pé do ouvido da moça porque estava na política, mas o sangue subiu pra a cabeça dela.
Voltando à história, quando terminou, seguimos a pé em passeata, aí pude ver melhor a quantidade de gente, nós já íamos em frente à igreja dos crentes da Rua Padre José Tomás e ainda vinha gente dobrando o canto do sinal da Camilo de Holanda, não era muita gente? Foi quando João Agripino se virou para mim e disse:
- Chico, você tem prestígio, mesmo!
Respondi, brincando que não! E expliquei que aquele povo todo veio pro comício para ver a cara do “papa-figo”.
É que a minha hepatite tinha causado um rebuliço da- nado. Os adversários espalharam que eu, devido a doença, tinha virado um papa-figo e para que eu ficasse curado, tinha que be- ber sangue de crianças, o pâ- nico foi tão grande que chegou o ponto que as mães assustadas, principalmente na zona rural, não deixassem os seus filhos sozinhos com medo de serem pegos pelos caçadores de meninos. Esta história eu contei há muitos anos no meu livro autobiográfico “Do Miolo do Sertão”. (páginas 207 a 211, nota do blog).
Também João Agripino deixou Cajazeiras perder a linha de avião da Varig que vinha de Recife até São Luís, via Cajazeiras, por não asfaltar a pista. Outra con- versa fiada foi que ele construiu o Colégio Estadual, até na placa da inauguração não botaram nem meu nome e nem do Governador Pedro Gondim, os verdadeiros cons- trutores do colégio, tá lá todo mundo por ir lá ver. Foi outra obra que deixei quase pronta com a ajuda do Governador Pedro Gondim, mas só foi inaugurada no governo do João Agripino
Finalizando de vez por todas, posso dizer que para o estado João Agripino foi bom, dei- xou obras importantes que fez a Paraíba adiantar alguns anos de progresso, mas a Ca- jazeiras ainda hoje ele deve o que prometeu e não cum- priu. 
Estes são os fatos. Um abraço a todos os paraibanos e em especial aos cajazeirenses que tiveram a paciência de me acompanhar até o final desta entrevista.
Obs. as fotos são meramente ilustrativas, aproveitadas de uma outra entrevista dada ao programa Trem das Onze da Rádio Alto Piranhas.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Minhas lembranças de Cajazeiras

por Liduina Araujo de Oliveira
Quem não se lembra dos bons tempos do início da adolescência, meia menina, meia moça. As lembranças dos antigos cinemas trazem muitas saudades.

 Recordo quando saía do Colégio Nossa Senhora de Lourdes cantando toda orgulhosa no Coral e quando saía do colégio no início da Praça João Pessoavia logo o cartaz do Cine Éden encostado no primeiro poste da avenida.
Ah, como era bom! Ver a meninada na maioria gritaria e assovios que doíam os ouvidos, levantando e baixando de vez o assento da cadeira para aumentar o barulho, bom demais, jamais vou esquecer estes momentos.
Também tinha o Cine Pax e o Apolo no prédio da Rádio Alto Piranhas. Lá no Pax a meninada começando a namorar ficava nas cadeiras lá atrás para ninguém olhar. Quem chegasse primeiro guardava a cadeira para o outro, assim também no Apolo nas cadeiras do primeiro andar.
Pena que papai não deixava ir muito ao cinema. Outra coisa, eu nunca deixei algum namorado pagar minha entrada, eu achava feio, papai sempre me dava o dinheiro para pagar. 

 Ah, sim quem não se lembra na porta do Cine Éden, várias banquinhas vendendo juquinhas, pipocas, rolete de cana, a gente fazia a festa. Seu Tinino com a sua caroça, também vendendo. Seu Carlos Paulino bem na porta, sério acompanhando o movimento.
São tempos que não esqueco jamais!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

FORÇAS MISTERIOSAS CONSPIRAM CONTRA CAJAZEIRAS

FORÇAS MISTERIOSAS CONSPIRAM CONTRA CAJAZEIRAS
Do livro Cajazeiras, Nas Crônicas de um Mestre-Escola, pags. 99 a 101
Professor Antonio José de Sousa
Serrote do Jatobá, hoje Monte do Cristo Redentor
Esta localidade que surgiu nas matas do vale do Rio do Peixe, no extremo-oeste do sertão paraibano, ao sopé do serrote do Jatobá, hoje Monte do Cristo Redentor, teve sua origem com a construção do açude e a edificação da casa da fazenda Cajazeiras sob a administração do seu proprietário VITAL DE SOUSA ROLIM.
No local da primitiva casa da fazenda Cajazeiras, à margem do açude, onde está edificado hoje o mais elegante clube da sociedade local, nasceu a cidade que ensinou a Paraíba a ler. De simples fazenda chegou a ser elevada a povoação, vila e cidade, graças ao rápido desenvolvimento de seu progresso, motivado pela presença da assistência espiritual e educacional, que lhe fora proporcionada por Mãe Aninha, com a edificação da Capelinha de Nossa Senhora da Piedade, e pelo Padre Mestre Rolim, com a instalação de sua escola, que se tornou colégio, o primeiro em todo o Estado da Paraíba.
É esta a base da edificação de nossa cidade. A cidade dos Gomes, dos Lins, dos Albuquerque, dos Souza, dos Rolim, dos Cartaxo e dos Bezerra. Cidade de uma história bonita, que teve a sua origem às margens do Riacho das Capoeiras, nas terras secas do Vale do Rio do Peixe, sob a inspiração da família cristão, e as bênçãos do Sacerdote de Cristo.
Localidade esta que fora moldada em torno da Capelinha de Nossa Senhora da Piedade, a casa de conversação com Deus, para o alimento espiritual da alma. Cidade que nascera ao beiral de um Colégio, a casa da instrução e do saber para educar, dando o alimento da cultura e a luz da ciência às criaturas humanas. Núcleo social que se instalou às margens do açude, reservatório de água, líquido precioso, que alimenta a vida material do homem, dos animais e das plantas.
Uma cidade assim, que tem a sua origem assentada sobre o alicerce de sólida estrutura espiritual, moral e social, não pode jamais ficar exposta às influência maléficas, que agem às ocultas, sob capa misteriosa, escudadas na covardia, jogando os torpedos da destruição de seu progresso e da sua civilização.
Querem destruir Cajazeiras colocando uma pedra no caminho do seu desenvolvimento. Até parece que para isto se acha em marcha uma vasta conspiração. No ano passado, o ano do seu Primeiro Centenário de município, suspenderam o tráfego ferroviário que lhe trouxera progresso e civilização durante mais de 40 anos. Negaram-lhe o direito de ser a sede da Quarta Residência do DNOCS. Abriram as comportas da Barragem do Piranhas. Esvaziaram  o reservatório de água, com que propósito não sabemos, mas a maldade humana julgou que poderia ser uma determinação perversa para prejudicar o abastecimento de água da cidade, que se acha em vias de conclusão.
Para completar a nefasta obra de hospitalidades à terra do Padre Rolim, numa atitude humilhante para o povo desta cidade e das regiões circunvizinhas, mandaram arrancar e retirar os trilhos da estrada de ferro que Epitácio Pessoa deu de presente à Cajazeiras, quando presidente da República, no ano do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.
Agora. No ano de 1965, depois de 43 anos que a nossa terra e a nossa gente se beneficiam com o serviço do tráfego ferroviário, que tanto bem tem feito aos que habitam nesta região, justamente no ano centenário do nascimento de Epitácio Pessoa, quando, como homenagem ao grande paraibano e ilustre brasileiro desaparecido, se deveria aperfeiçoar e intensificar o serviço de trem como transporte popular, foi decretada a extinção da nossa estrada de ferro, construída e inaugurada pelo governo do presidente Epitácio Pessoa, representando uma dádiva de sua brilhante administração, que impulsionou o nascer e crescimento de uma nova era de prosperidade e grandeza, não só para a nossa cidade, mas para todo sertão do Alto Piranhas.
Felizmente, segundo estamos informados, o Sr. Prefeito do Município, que se achava ausente de Cajazeiras, logo que chegou tomou as providências cabíveis no caso, e conseguiu paralisar o arracamento dos trilhos
O Chefe da Edilidade Municipal, Sr. FRANCISCO MATIAS ROLIM, em companhia do Monsenhor VICENTE DE FREITAS, esteve em Campina Grande, na última segunda-feira, onde se encontrou com o Ministro da Viação, levando ao seu conhecimento o que se estava passando em Cajazeiras.
Desse encontro com o Ministro da Viação ficou acertado novo encontro em Fortaleza, sede da RVC, para a solução do caso do nosso trem, amanhã, 9 de abril.
Vamos aguardar, fé em Deus e confiança nos homens o resultado dos entendimentos dos nossos representantes, com o Ministro da Viação e os Diretores da RVC, para a definitiva solução do caso do nosso trem, o trem que Epitácio nos deu e tanto contribuiu para o desenvolvimento em Cajazeiras.
Cajazeiras, 8 de abril de 1965

domingo, 13 de maio de 2012

O vaso de flores

Pelos idos da década de 1960, papai, aconselhado por mamãe, resolve me dar um “emprego” no Armazém Paulista que ficava logo no começo da Rua Epifânio Sobreira, um edifício de quatro pisos que, na época, rivaliza com a velha rodoviária Antonio Ferreira, como os dois mais altos prédios de Cajazeiras. O gerente era o finado Antonio Dunga e eu fui nomeado “sub-gerente”, todavia a minha maior responsabilidade era recolher o livro de ponto às oito horas em ponto para que funcionários retardados tivesse o dia descontado.
Ganhava Cr$ 1 (um cruzeiro)! Não era pouco para uma criança e assim mesmo com os gastos de sorvetes e cinema (parque e circo eu não pagava, pois como filho do prefeito tinha acesso gratuito) ainda me sobrava dinheiro.
Chega o dia das mães, com dinheiro poderia me dar o luxo de comprar o presente sem precisar de socorro financeiro de papai. Tem orgulho maior para uma criança do que comprar o presente para sua  mãe neste dia?
Pensei com os meus botões e nada me vinha à mente, chegou sábado e não achava o presente ideal. Sábado dia de feira na cidade e, pensei, lá, certamente, encontrarei o presente. Rodei na feira e não achava nada... Panelas e potes de barro, brinquedos rústicos, literatura de cordel para todos os gostos, roupas, quase que só de chita e cáqui, chapéu de palha, e mil coisas mais, mas eu não achava o presente. Quando já desesperançado em frente á sapataria de Manoel Caiçara na Rua Juvêncio Carneiro, logo ao entrar na rua pela Praça Coração de Jesus, encontro uma velha tão gorda e baixa que mais parecia um metro cúbico de carne vendendo flores. Mas que flores? Uma lata de tinta usada revestida de papel celofane cheia de areia com flores e seus talos feitos de arame, também ambos revestidos de papel celofane.
O presente não era tão feio. Tornou-se. Na alegria de ter encontrado o presente, sai correndo para casa. Menino não anda, corre. Quando eu dobro o canto da Travessa Santa Teresinha que bem no meio, em frente à livraria do finado Horácio Alves, tinha uma fossa grande, até construída na administração municipal de papai, que ficou mais alta que o calçamento, propiciando aos mais apressados a oportunidade de tropeçar. E foi o que aconteceu comigo. Fui para um lado e a lata, oppss, o vaso de flores para outro deixando-o com várias avarias. Ah, isso não é problema, joguei a terra que foi esparramada pelo chão de volta à lata, oppss, o vaso de flores, enfiei de volta os arames, ooppss, os ramos de flores no vaso e voltei a correr para casa, era a casa nova da  Rua Victor Jurema, uma casa grande, a maior e a melhor que morei em Cajazeiras, e escondi o presente na garagem.
Dia seguinte, domingo, Dia das Mães, vou buscá-lo e entro solenemente em casa para entregá-lo à mamãe, a emoção dela foi grande, principalmente quando soube que o presente tinha sido comprado com economias do meu trabalho. Mamãe nem viu o estado deteriorado pelo acidente de percurso, ou melhor, não deixou transparecer.
Empolgado, fiz uma só exigência: “Mamãe queria lhe pedir que guardasse o presente em cima da geladeira” e assim ela fez.
Aí, está o bom da história, as visitas que apareciam lá por casa e vendo a casa toda arrumada e chique, estranhava aquela monstrengo que destoava em cima da geladeira e perguntava: “Teresa, o que aquela presepada em cima da geladeira?”. Mamãe, afobada, fazia sinal de silêncio e cochichava: “Foi o presente do dias das mães do meu filho!”
E lá permaneceu por bom tempo, assustando as visitas.