terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma homenagem significativa ao Padre Rolim

Santinhos distribuídos aos presentes.
Verso do santinho. 


Padre Raimundo Rolim, descendente direto do Padre Rolim, foi o celebrante
Na homília, o Padre Raimundo participou aos presentes do andamento do processo de canonização do Padre Rolim, este assunto será postagem deste blog na forma de uma entrevista com o Padre Raimundo, até já acertei com o jovem Bruno de Lima, seu afilhado.
Chico Rolim
Zélia Ribeiro

Na hora da saudação entre os irmãos
Dorinha Montenegro



Major Cunha Rolim abraçando o parente
No coquetel após a Missa

Esta cajazeira foi plantada pelo Padre Inácio de Sousa Rolim





quinta-feira, 19 de junho de 2014

Inquérito do atentado a dom Zacarias

por Francisco Frassales Cartaxo
O inquérito policial acerca da explosão da bomba-relógio no Cine-Teatro Apolo XI, em 1975, foi localizado pela Comissão Estadual da Verdade, segundo divulgou o Gazeta do Alto Piranhas, semana passada. Conhecer aquele processo é o sonho de pesquisadores e jornalistas interessados no tema. Trinta anos após o atentado, quando eu recolhia dados para escrever o livro “Do bico de pena à urna eletrônica”, resolvi acrescentar um capítulo específico sobre o episódio, não previsto no roteiro inicial do estudo. Era estranho ver ação tão brutal relegada ao baú do mistério. Não encontrei sequer uma nota oficial, ainda que fosse para nada dizer. Naquela oportunidade, fiz a reconstituição do fato, com base nos jornais de João Pessoa, além de esboçar o perfil de dom Zacarias, o presumido foco do ato criminoso.
Foi com base na leitura do “Capítulo 8 - Atentado contra dom Zacarias Rolim de Moura”, que o Jornal do Commercio, do Recife, depois de várias rodadas de conversa com o autor destas linhas, decidiu mandar a Cajazeiras uma equipe especial, que produziu com muita competência e profissionalismo longa reportagem divulgada em quatro edições dominicais seguidas, entre 17 de abril e 8 de maio de 2011. O trabalho do JC, a mais completa reconstituição dos fatos, buscava alcançar quatro objetivos principais: a) chamar a atenção para a tentativa de matar um bispo católico, na qual morreram duas pessoas e outras duas restaram feridas; b) tentar induzir a confissão de algum personagem envolvido diretamente no atentado; c) ter acesso ao inquérito oficial realizado pelas autoridades policiais e militares.
E o quarto objetivo?
Este eu não posso revelar por escrúpulo ético, como participante ativo das articulações iniciais e da própria execução do projeto, na condição de acompanhante. Os profissionais do JC se deslocaram até Cajazeiras, a Juazeiro do Norte e Campina Grande para colher depoimentos, entre outras pessoas, dos dois sobreviventes, familiares, historiadores. Testemunhei o enorme esforço jornalístico, pois me agreguei à equipe na viagem a esses lugares, participando de quase todas as entrevistas realizadas. De uma, todavia, fiquei fora: a conversa com o americano Francis Xavier Boyes, aqui no Recife, por imposição daquele professor.

Fui testemunha também do enorme esforço do jornalista Ayrton Maciel para ter acesso ao inquérito ou obter pelo menos uma palavra oficial a respeito do atentado a dom Zacarias. Nada. Todas as portas se fecharam. Negaram a existência de registro nos arquivos de vários órgãos, inclusive do Ministério da Justiça. O mesmo Ministério que agora repassa cópia do processo à Comissão Estadual da Verdade. Um grande tento do governo Ricardo Coutinho, mérito para os membros daquela Comissão. Resta aguardar o relatório da professora Irene Marinheiro e esperar que o documento oficial seja esclarecedor. E não um embuste. Um embuste como foi, por exemplo, o inquérito feito pelo Exército sobre o desastrado caso do Rio Centro, no dia 1º de maio de 1981, cujas conclusões agrediram as evidências em contrário.


domingo, 15 de junho de 2014

Centenário de Dom Zacarias, por José Antonio Albuquerque

O cantor e compositor Luiz Gonzaga costumava dizer que uma das cidades que mais economizava aplausos, era Cajazeiras. E em suas passagens por Cajazeiras, com destino ao Crato, sempre visitava o estabelecimento comercial de meu pai, onde era re-cebido com festa e ao se despedir levava consigo alguns litros de conhaque Macieira, cortesia da casa. Do velho Lua, mais de uma vez ouvi-o falar sobre a frieza de Cajazeiras e a contenção de seus aplausos. 
Esta mesma opinião tinha Dom Zacarias com relação a sua querida e amada cidade, que segundo ele só não fez nascer, mas se considerava dela filho, pois sempre se recusou a receber o titulo de cidadão cajazeirense e nunca foi a Assembléia Legislativa receber a cidadania paraibana, aprovada pela unanimidade de seus deputados, porque também nunca se considerou cearense. 
 Dom Zacarias, que era Rolim da gema, falava da sua própria família ao dizer que Rolim “não gosta de aplaudir, mas de ser aplaudido”. E as opiniões de Luiz Gonzaga e Dom Zacarias são mais do que verdadeiras, senão vejamos: o nosso “profeta” Zacarias, como o chamava seu irmão em Cristo, Dom Helder Câmara, neste dia 13 de junho, se vivo fosse, estaria completando 100 anos do seu nascimento e quais os aplausos e as homenagens que sua terra está lhe tributando? 
O legado de Dom Zacarias é imensurável e transcendental e para justificar basta citar dois grandes feitos de seu laborioso episcopado: a implantação do ensino superior em nossa cidade, através da criação da Faculdade de Filosofia e a Rádio Alto Piranhas, dois importantes veículos de difusão de conhecimentos, cultura, educação e diversão e que têm elevado o nome de nossa cidade além de suas fronteiras. 
  Foi um cidadão extremamente preo- cupado com a formação de novos padres e foi também pensando nisto que trouxe no bojo da escola de ensino superior o Curso de Filosofia, com a finalidade precípua de formar os seminaristas de sua diocese e numa época em que se fecharam quase todos os Seminários Menores do Nordeste, Dom Zacarias, conseguiu manter a duras penas, o Seminário Nossa Senhora da Assunção, com suas portas abertas e com um razoável número de alunos. 
Preocupava-se muito com a formação de seus padres e quase todos eles passaram pelos bancos escolares de grandes centros educacionais de Roma, onde iam estudar Teologia e Filosofia. 
Quando buscou uma concessão de rádio para Cajazeiras, o fez através de Dom Hélder Câmara, que era amigo do presidente JK e para isto bastou apenas um bilhete do Arcebispo de Olinda e em poucos dias Cajazeiras ganhava a sua primeira concessão, mas com as dificuldades financeiras da Diocese, somente cinco anos depois foi para o AR e a missão principal da emissora era para evangelizar e educar e a emissora transmitiu durante anos cursos dirigidos principalmente para a zona rural. 
 Pesa sobre os seus ombros uma acusação de ter sido o causador da saída dos Padres Salesianos de Cajazeiras, em 1959, mas a verdade dos fatos é a de que ninguém mais do que ele lutou para que eles não deixassem a direção do velho e tra-dicional Colégio Padre Rolim, in-cluindo aí uma viagem à Itália para falar com o Prior dos Salesianos na tentativa de que permanecessem em Cajazeiras. Mas a verdade é que o Colégio estava com a matrícula muita baixa e não tinha como se manter em nossa cidade: era o advento do ensino público e gratuito, que até então era dominado em Cajazeiras, pelo ensino pago. 
Dom Zacarias foi o responsável direto da vinda da Universidade Federal da Paraíba para Cajazeiras, quando, juntamente com o Padre Luis Gualberto de Andrade, transferiram todo o acervo da FAFIC para o recém criado Campus V, tendo a frente o grande e inigualável reitor Linaldo Cavalcante de Albuquerque. Este foi um dos bens maiores do episcopado de Zacarias para os sertões do Nordeste, que carecia de ensino público e gratuito. Esta talvez seja o maior de todos os legados do nosso “Profeta”. 
A Dom Zacarias, o grande Latinista e mestre exímio da língua portuguesa, na passagem do Centenário de seu nascimento, a nossa singela lembrança e o nosso imorredouro reconhecimento por tudo que fez por nossa terra querida e quem sabe um dia não seja alvo de nossos aplausos e de nossas homenagens ou mesmo uma estátua em praça pública? 
Para o cidadão, que gostava de um charuto cubano, nossas saudades e nossas orações.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

OS GRITOS NO CEMITÉRIO VELHO DE CAJAZEIRAS*

No início do século passado, por volta da década de 30 e de 40, existia ao lado do Cemitério Coração de Maria, o conhecido “Cemitério Velho”, uma rua onde funcionavam os bordéis da cidade. Ironicamente, o nome popular que essa rua ganhou foi o de “Rua dos Cabarés”. Era um lugar onde alguns homens da sociedade cajazeirense e região da época se refugiavam, em busca de aventuras românticas fora do cotidiano do matrimônio.
  O fato é que, em determinada ocasião, barulhos oriundos do interior do cemitério começavam a in- comodar a clientela que visitava aquele local. Barulhos estes que se sucederam por mais de uma semana seguida, sempre com o som de lamentos. Convoquem a “volante”! Sem esperar que se tratasse a primeira vista de coisa do outro mundo, os habitantes do lugar exigiram que a força policial da época, desse uma batida rigorosa naquele lugar, e que surpreendesse os prováveis engraçadinhos que estavam proporcionando aquele tipo de travessura.
Pois bem, o fato é que, cerca de dez “cabras” municiados de rifles, tochas, candeeiros e lampiões, partiram para o interior do famoso local de sepulturas. Nessa época, o cemitério já contava com bastante “catacumbas” construídas, e era necessária uma apuração minuciosa. Foi o que foi feito, mas o mais surpreendente é que, nenhum meliante foi encontrado dentro do referido local.
Pensando que os autores dos gritos tinham foragido quando viram a patrulha nos arredores do cemitério, cujas ruas ainda não eram calçadas e a lama tomava de conta até a canela nos períodos invernosos, os soldados saíram do lugar relatando que nada haviam encontrado. Pois bem, foi só a volante deixar o lugar e os gritos voltaram novamente. Intrigados, os clientes e as raparigas chamaram novamente a patrulha, e para que se certificassem que os autores da brincadeira sem graça fossem encontrados e presos, outros homens decidiram entrar junto da patrulha ao velho cemitério.
           Resultado, mais uma vez, ninguém foi encontrado. A solução foi deixar alguns policiais tomando de conta do lugar, escondidos, só esperando que alguém desse uma de gaiato e fosse apanhado com a “boca na botija”.
  Como os barulhos cessaram, os policiais resolveram que seria mais interessante es- perar um outro dia para surpreenderem o autor ou os autores de tamanho rebuliço. O fato é que, no dia se-
guinte, os barulhos em forma de gemidos e lamentos voltaram a soar de dentro do velho fossário, o que intrigava ainda mais as pessoas que frequentavam a região ao lado. Como a iluminação era precária, resolveram fazer várias fogueiras em volta e sitiar aquele campo santo, pois muitos indagavam que, se ficassem ali, com certeza veriam alguém fugir de dentro do cemitério.
Pois bem, o cerco foi feito, várias fogueiras foram acesas, alguns patrulheiros e civis, armados com fuzis, estacas, foices e peixeiras, ficaram do lado de fora, esperando pegar os “cometedores” de tamanho sacrilégio. Os gritos prosseguiram, mesmo com aquela inquietação inteira em volta.
          O dia amanheceu e ninguém saiu de dentro do cemitério. Intrigados, parte dos sitiadores invadiu o lugar, vasculharam tumba por tumba, verificando se havia alguma aberta com alguém escondido lá dentro, até a capela existente no interior do cemitério foi revirada, mas como das outras vezes, nada nem ninguém foi encontrado. Não tinha outra resposta: O CEMITÉRIO ESTAVA MAL ASSOMBRADO.   Agora não era mais necessária a “força humana”, e sim a “espiritual”. O Padre! O pároco foi convocado para exorcizar o lugar. Relutante, o vigário afirmou que se ali havia energias negativas, era devido existir ao lado do principal cemitério, um grupo de estabelecimentos que serviam como casa de prostituição.
   Uma missa foi promovida no lugar para ver se os barulhos de lamento cessavam. Foi em vão. Na mesma noite, os barulhos, dessa vez não só mais de gemidos, mas como de pisadas forte na terra foram ouvidos. Assustados, os moradores das redondezas deixaram suas casas e partiram a acordar o padre, já altas horas da noite, e exigiam que este os acompanhasse para encontrar a alma penada e fazê-la descansar em paz. Nada foi encontrado. Convoquem o Bispo! Foi chamado o Bispo direto da Diocese, que juntamente com uma comitiva de padres chegou até o recinto mal assombrado. Uma cerimônia foi realizada para fazer com que a alma relutante pudesse encontrar o caminho da paz.
Não tinha jeito. Aquela provável alma não queria abandonar o seu posto. Fechem os bordéis! A mensagem a princípio do pároco de ali só estar mal assombrado devido à presença de casas de prostituição soou como única solução viável para o Sr. Bispo.
Cerrada as portas dos cabarés, não é que os gritos e gemidos pararam! Foi uma vitória provisória da Diocese. Provisória, porque, certa ocasião, uma das quengas revoltadas com a decisão, pôs fim a sua própria vida. Ela foi enterrada no velho lar dos mortos, bem ao lado da ladeira colossal que hoje tem o nome de “Ladeira do Cemitério”.
Pois bem, depois do tresloucado gesto, os gemidos e barulhos retornaram. Benzam a cova! Benzida a cova, os barulhos temporariamente emudeceram.
     Certa noite, um popular vinha voltando da casa de sua noiva, que ficava a algumas léguas dos arredores da cidade. De lampião na mão e ignorando que iria passar ao lado do cemitério e que era exatamente meia-noite, o cidadão prosseguia tranquilamente, até que de repente, uma pessoa usando um vestido branco pulou o muro do cemitério e saiu correndo em direção ao Grêmio Artístico. O rapaz pensou: “Só pode ser o autor dos gritos”. Não contou outra, partiu atrás da suposta pessoa. Mas, por mais que ele corresse, não conseguia alcançar o dito cujo.
    Ao chegar à calçada do Grêmio, a pessoa parou e ficou estacionada na esquina. O homem se aproximou e percebeu que um cheiro forte de carniça tomava conta do local.
   Ao deparar com a pessoa parada na esquina, o cidadão perguntou: “Aconteceu alguma coisa?” nada lhe foi respondido. Ele então ino- centemente tocou no ombro da criatura, e o que se viu em seguida foi uma coisa tão medonha, que o coitado correu por onde tinha vindo e acabou voltando para a casa da noiva, a qual junto dos parentes ouviu o relato do pobre infeliz, que descreveu a criatura com a pele largando do corpo, e o que aparentava ser um vestido branco, na verdade era a mortalha.
 Outras pessoas viram a tal assombração por várias vezes. Fosse dançando em cima do telhado da capela, fosse dando voltas nos arredores do cemitério. Alguns taxavam que seria a quenga morta que tinha voltado para reclamar o fechamento dos cabarés. Nisso, os restos mortais dela foram exumados, e enterrados em outro lugar. Desde esse dia, as aparições, os gritos e os lamentos nunca mais foram vistos ou ouvidos naquele lugar.



Graduando em História pela Universidade Federal de Campina Grande - UFCG, campus de Cajazeiras (PB). Nas horas vagas me dedico a escrever crônicas, textos, poesias, artigos, redações, livros, fazer desenhos, pinturas e fotografias de pessoas típicas, Patrimônios Históricos e paisagens. Dedico este blog a todos vocês que aqui passarem. Álisson Oliveira (Orzabal Duran)


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Tenente Sabino, hoje o tal Calçadão!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os heróis na história de cajazeiras, segundo Zé Antônio!

Parece até um vale a pena ver de novo! Mas vale esta entrevista do professor-historiador José Antônio de Albuquerque, uma referência na cidade de Cajazeiras no campo educacional e na história. Pela sua fluência verbal, natural, espontânea e agradável de escutar, Zé Antônio acabou se misturando com a história de Cajazeiras, mas houve a oportuna intervenção do entrevistador, outra referência do jornalismo cajazeirense, que alertou que o Zé Antônio detém um cacife de pelo menos uma dez entrevistas potenciais, uma verdade para quem conhece a figura do Zé Antônio.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cardeal Arcoverde e a diocese de Cajazeiras

Por Francisco Frassales Cartaxo 
O cardeal Arcoverde é nome de praça em Cajazeiras. Mais do que isso, em Pernambuco é nome de município, que se chamava Rio Branco, em honra ao Barão do Rio Branco, e virou Arcoverde, homenagem ao filho ilustre nascido na fazenda Fundão, propriedade de seu pai, Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti, conhecido como capitão Budá. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930), ainda menino quase rapaz, veio estudar no colégio do padre Rolim. Pouco tempo depois de concluir os preparatórios viajou para a Europa. Por isso, o cardeal Arcoverde ligou-se para sempre a Cajazeiras. Mas não fica apenas no estudo. Colega de Cícero Romão Batista no famoso colégio do padre Rolim, os dois tomaram rumos diferentes. Joaquim Arcoverde estudou em Roma e na França. Voltando ao Brasil, fez-se vigário e professor em Pernambuco. E bispo em São Paulo e no Rio.
Quando se espalhou a notícia dos “milagres do Juazeiro”, em 1889, a hóstia banhada em sangue na língua da beata Maria de Araújo, Arcoverde não gostou nada de saber que padre Cícero estava no caminho da perdição, como então era considerado pela hierarquia da Igreja o desvio trilhado pelo também ex-aluno do padre Rolim. Entre outras atitudes e ações contra padre Cícero, o bispo Arcoverde encaminhou à Congregação do Santo Ofício (Inquisição) informações críticas a respeito dos “falsos milagres”. Isso é o que admite o pesquisador americano Ralph Della Cava, especulando ainda que: “É possível que Arcoverde tenha também solicitado uma ação enérgica por parte de Roma a fim de destruir Joaseiro, assim como ele havia aconselhado d. Joaquim a fazer, em dezembro de 1891.” De fato, Joaquim Arcoverde criticou com dureza o seu xará, dom Joaquim Vieira, bispo do Ceará, por não ter cortado as raízes com ato enérgico, porque “aí no Joaseiro o ridículo é o caráter predominante. Por conseguinte, nada há ali de divino,” conforme carta transcrita por Della Cava, em seu livro Milagre em Joaseiro, o mais completo estudo sobre padre Cícero.
Que interesse tem isso?
Interesse histórico. Este ano a diocese de Cajazeiras festeja o seu primeiro centenário e, até agora, não encontrei nenhuma referência explícita ao papel desempenhado pelo cardeal Joaquim Arcoverde na decisão da Igreja de escolher Cajazeiras para sede da segunda diocese em território paraibano. Não li nem ouvi citação expressa, porém, ando farejando sua influência, quando nada, na estratégia traçada para a criação de novas dioceses no Brasil republicano, após o catolicismo deixou de ser a religião oficial.

Arcoverde conviveu com alguns dos mais importantes personagens dos “milagres do Juazeiro”. Além de padre Cícero, ele conheceu o padre Francisco Monteiro, o intelectual José Marrocos, que também foi seu professor, além de outros participantes ativos nos episódios protagonizados por padre Cícero e Maria de Araújo. Ora, Arcoverde foi padre, bispo, arcebispo em São Paulo e no Rio de Janeiro, antes de ser nomeado , em 1905, o primeiro cardeal da América Latina quando, já estava em plena execução o plano de reestruturação da Igreja no Brasil. Bem articulado dentro e fora da Igreja, a voz de Joaquim Arcoverde deve ter-se levantado a favor da criação da diocese de Cajazeiras.

sábado, 5 de abril de 2014

Cajazeiras, Terra de cabra macho




Texto

Terra de cabra macho

A maioria dos meus leitores sabe que sou paraibano. Nasci em Cajazeiras, no alto sertão, a quinze quilômetros do estado do Ceará, onde fui buscar a mais bela conterrânea de Iracema, para torná-la minha consorte.

Como se vê, viajei pouco para encontrar a sorte benfazeja.

O nome de minha cidade natal origina-se de árvore frutífera, de pequeno porte, abundante na região. Em 07 de fevereiro de 1767, passou a fazer parte de uma sesmaria, pequeno terreno abandonado, cedido pelos reis de Portugal para ser povoado. O governador da capitania, Jerônimo José de Melo, a presenteou a Luiz Gomes de Albuquerque, que a doou à sua filha Ana de Albuquerque, após seu casamento com o jovem Vital de Souza Rolim. Emancipada em 10 de julho de 1876, completará, em breve, 135 anos de autonomia administrativa.

Em 22 de agosto de 1800, nasceu um dos filhos de Ana de Albuquerque, registrado com o nome de Inácio de Souza Rolim, ordenado padre em Olinda, estado de Pernambuco. Em 1843, o padre Rolim, como viera a ser conhecido posteriormente, retornou à terrinha e fundou o Colégio Salesiano, que recebeu o seu nome. Ali estudaram o Padre Cícero Romão Batista, “meu padim pade ciço” e o primeiro arcebispo do estado da Paraíba, Dom Arcoverde. E eu, este modesto escrevinhador.

Cajazeiras é uma cidade pequena. Apenas 58.437 habitantes disputam o PIB de 400 milhões de reais, cabendo-lhes, individualmente, cerca de R$ 7.000,00. O Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, é de 0,68, considerado médio, para a região.

A terra do Padre Rolim é bastante movimentada culturalmente. Dispõe de campus universitário federal, de modesto museu, de duas estações de rádio e de um jornal. O teatro, porém, é a expressão maior de sua cultura de divertimento. Os circos de variadas origens e representatividade fincam estacas e estendem lonas impermeáveis em terrenos autorizados pela prefeitura. O cajazeirense é amante da arte cênica, já tendo exportado alguns atores, um deles, uma atriz, minha parenta, integra o elenco de novelas da Rede Globo. Eu, sem querer me exibir, já escrevi uma peça dramática que representei e dirigi.

Em certa ocasião, instalou-se no bairro Alto do Cabelão, um circo de boa reputação. A tenda tinha considerável circunferência. Os artistas distinguiam-se por suas performances espetaculares. Os palhaços faziam a seleta plateia rir, às gargalhas. A programação noturna sempre culminava com a representação de uma peça, algumas românticas, outras trágicas, que normalmente faziam chorar o espectador mais emotivo.

Por ocasião da Semana Santa, resolveram encenar a Paixão de Cristo.
O elenco compunha-se dos mesmos artistas que dividam trapézio e picadeiro, além de alguns moradores da cidade, especialmente convidados. Um rapaz de boa aparência fora indicado para fazer o papel de Jesus. O sujeito era “boa pinta”, usava barba bem cuidada e tinha os cabelos longos e cacheados. Mais ou menos umas trinta pessoas representariam o Cristo, Maria mãe de Jesus, Maria Madalena, Pôncio Pilatos, discípulos do Mestre, alguns fariseus e três ou quatros soldados romanos.

Durante os ensaios, a esposa do dono do circo apaixonou-se por “Jesus”, o intérprete. E ele, que não dava moleza, aproveitou a deixa. Às vésperas da encenação da peça, o proprietário do circo soube do repentino romance. Ficou furioso, mas controlou-se. Aguardaria melhor oportunidade. Um escândalo naquelas alturas prejudicaria o investimento. Depois de pensar bastante, encontrou a solução: iria participar da peça, fazendo o papel de um soldado romano.

No dia do espetáculo, a cidade inteira lotou as dependências do circo. A representação do sofrimento de Jesus tornava a plateia chorosa. As mulheres e alguns homens derramavam seus prantos silentemente. Jesus, o ator, sofria no corpo as fortíssimas chibatas desferidas pelo soldado romano que empunhava o chicote com a destreza que a vingança lhe proporcionava.

“Jesus” reclamou em voz baixa:

– Oxente, cabra, tá machucando!

Para dar mais veracidade à cena, o soldado batia sem dó nem piedade. O lombo do infeliz ator já sangrava, quando, sem mais aguentar, sacou de uma peixeira de doze polegadas e partiu para o seu algoz, dizendo:

– Vou te ensinar como se defende na Paraíba!

O dono do circo corria desesperadamente, protegendo-se atrás de um e de outro ator, que a tudo assistiam sem nada entender. A plateia, antes chorosa e compadecida, presenciando o sofrimento de Jesus, o intérprete, gritava delirantemente:

– É isso aí, Jesus, fura ele!

Outros diziam:

– Aqui é a Paraíba, “bichim”. Não é Jerusalém, não!

E o espetáculo terminou antes da crucificação.
Lamércio Maciel
Publicado no Recanto das Letras em 26/05/2011
Código do texto: T2994009



Lamércio Maciel
Brasília/DF - Brasil, 70 anos

Quem sou eu

Nasci no estado da Paraíba, em 1941. Fui cronista de uma emissora de rádio em minha cidade natal, Cajazeiras, na década de setenta, época em que me aventurei no teatro amador. Na oportunidade, escrevi uma peça que representei e dirigi. Por temer represálias do regime militar, abandonei a lide literária depois de ter meus escritos questionados pela ditadura dos generais. A partir de 2002, já aposentado, fiz as pazes com o “verbo” e voltei a escrever. Como bacharel em ciências contábeis, exerci as atividades de contador e auditor, tendo publicado duas obras: Contabilidade, Aspectos Jurídicos e Fiscais do Balanço e Auditoria Fiscal-Tributária. Ambas serviram de livros-texto em cursos e palestras que ministrei. Sou autor de quarenta contos, sessenta e três crônicas, três pequenos romances e três outras narrativas. Meus principais escritos receberam os seguintes títulos: Torre da Concórdia, Álbum de Recordações, Visitando o Passado, O ultimato, O único e Epopéia da Família Braga –– Um Giro pela Europa. Os contos foram reunidos em um volume, intitulado: Por que conto? Conto, porque conto; Conto por conto, Ora!. O volume contendo as crônicas foi denominado Aurora Literária.