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terça-feira, 4 de abril de 2017

Ô, PÃOZÃO DE ARROBA!


De manhã cedinho eu, ou algum irmão meu, íamos comprar pão pro café na padaria. Cajazeiras tinha várias padarias em várias épocas. Tinha a padaria de ‘seu’ Massilon, pai de Custódio e outros irmãos, que ficava ao lado da igreja dos crentes, a Assembléia de Deus; tinha a padaria de ‘seu’ Zeca, de frente pra praça dos carros, e hoje é o bar de Bibiano; tinha a padaria de Hidelbrando, na Camilo de Holanda; depois apareceu uma padaria mais moderna, que não lembro o nome, na Rua do Armazém de Seu Arcanjo – gosto de personalizar as ruas -; também se podia comprar pão em algumas bodegas, que vinha de alguma padaria; depois na Praça João Pessoa tinha outra padaria; depois... depois... 
Todas essas padarias faziam bons pães, prestavam um bom serviço. As pessoas se dirigiam a elas para comprar seus pães de cada dia. Normalmente na fachada dos prédios dessas padarias se tinha o nome delas pintado, e, geralmente era Timóteo, desenhista de letras, pai de Marcondes, que fazia. Era a identificação delas, era seu marketing. Cajazeiras era abastecida por essa produção de pães em escala. As padarias tinham seus padeiros contratados, tinha seus atendentes. 
Tudo isso é normal. É a lei do comércio. Tudo isso é normal, falei no parágrafo anterior, como também é normal a citação do dito popular de que “toda regra tem exceção”. E onde estava a exceção no feitio do pão de Cajazeiras se todo pão é um alimento feito de massa de farinha de trigo ou outros cereais, com água e fermento, de forma em geral arredondada ou alongada, e que é assado ao forno? A exceção é que se pode trabalhar com esses mesmos ingredientes e se dá sua versão, seu toque mágico, seu segredo, seu carinho com o trigo. 
 Pois em Cajazeiras existia essa exceção, reconhecida por todos. Era um pão singular. Era um pão gostosíssimo, era um pão de dar água na boca, era um pão feito por mãos entendidas de pão. Literalmente era um pão caseiro, pois que era feito em casa, sem identificação de padaria na fachada, sem marketing, sem comercial, sem ajudantes para vendê-lo à freguesia, sem padeiros extras para confeccionar os pães. 
 O responsável por essa particularidade saía pelas ruas de Cajazeiras vendendo seu peixe, ou melhor, vendendo seu pão. Seu marketing, seu comercial estavam agregados à sua voz sonora, a seu cesto sempre novinho, sempre limpinho, sempre coberto com um pano bem alvinho, e ele também sempre bem vestido. Seu jingle era conhecido por todas as pessoas de Cajazeiras, pronunciado de intervalos em intervalos de suas passadas largas – ele era alto, pernas longas - pois que tinha de atender sua freguesia cativa. Anunciava seu pão em um tom que não agredia aos ouvidos de ninguém: “olhaí o jacaré, quem vai querer! olhaí o pãozinho quente na hora, quem vai querer!...”, e quando gritavam por seu nome para comprar o pão ele elastecia seu bordão em um “Ô PÃOZÃO DE ARROBA!”. À tarde ele passava em frente a minha casa – Rua Pedro Américo - por volta das treze/quatorze horas e, quando era lá pelas dezessete horas, estava eu na Praça do Espinho e via-o passar com o cesto, sempre vazio. 
 Quando ele passava na calçada de minha casa meu nariz acompanhava o cheiro do pão do início ao fim da rua. Naquele momento, eu, criança/adolescente, achava uma merda ser pobre, pois não tinha dinheiro para comprar todo dia aquele pão sedutor, agradável, apetitoso, saboroso, deleitoso, e mais todos os adjetivos afins que o Aurélio, o Houaiss e mais o Caudas Aulete tiverem juntos. 
 Se vivo fosse, estaria ele completando ontem, dia 19, 92 anos. Pois esse homem simples, educado, trabalhador, religioso, respeitado por todos os cajazeirenses, pai exemplar, chefe de família de primeira grandeza, deu o melhor que podia a seus filhos. Estudei com sua filha no Colégio Comercial, menina aplicada. Com outro seu filho trabalhei fazendo cadeiras na oficina de ‘seu’ Zé Américo. Um outro era jogador de futebol, e um outro é professor de História. Os nome deles são: Criselite – se não me engano esse é seu nome -, Bartol, Beré e Cabral Filho. E o nome desse ilustre senhor, se chama: SAORA! 
 Eduardo Pereira E-mail: dudaleu1@gmail.com


quinta-feira, 18 de julho de 2013

O HOMEM MAIS SABIDO DE CAJAZEIRAS

Em 1975 foi publicada a primeira edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de autoria de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Foi, e continua sendo fenômeno editorial brasileiro. Só não vendeu mais que a bíblia, no Brasil.

Bem, Cajazeiras poderia ter um colaborador para esse fenômeno editorial, tendo em vista que ele era um apaixonado por palavras. Apaixonado ao ponto de ser um exibidor de vocabulário escorreito, digo: apurado. Suas palavras eram pronunciadas ao sabor da prolixidade, digo: muito longo, ou difuso.

Não, o nosso personagem amante da língua pátria não era escritor, não era jornalista, não era intelectual, no sentido lato, digo: amplo, da palavra, não freqüentava as rodas literárias de Cajazeiras, não tinha liame, digo: ligação, com a nata, digo: o que há de melhor, da intelectualidade cajazeirense contemporânea, digo: que vive na mesma época.

A vaidade e a erudição, digo: instrução vasta e variada, de nosso personagem, com certeza se renderia aos apelos e a ovação, digo: aplausos ou honras entusiásticas, de entrar para a Academia Cajazeirense de Letras, se assim houvesse.

Sua sapiência, digo: sabedoria divina, encantava e admirava a todos. A todos que se rendiam a seu estilo loquaz, digo: palavroso, verboso.

Essa figura impoluta, digo: pura, virtuosa, não tinha escritório de advocacia para verbalizar data vênia, digo: expressão respeitosa com que se principia uma argumentação, e logorréias, digo: hábito de falar com excesso.

Talvez nossa figura em destaque fosse o precursor, digo: que precede, da criação genial do dramaturgo Dias Gomes, Odorico Paraguassu. O linguajar rebuscado, digo: requintando, era sua marca registrada.

Afinal, se ele não estava numa banca de advocacia, onde ele estaria então? Estava ele num banco. Não, não era no Banco do Brasil. O seu banco, era o banco onde ele estava sentado vendendo tudo que uma budega sortida tinha para atender sua clientela. Sentado em seu banco, atendia a todos. Aos matutos, que se lhe rendiam basbaque, digo: que fica pasmo diante de tudo, e os urbanos de Cajazeiras.

Sua budega era bem provida, bem arrumada, bem limpa, de balcão bem organizado, distante dos balcões de outras budegas que serviam pinga em balcões sujos e imundos devido as goipadas dos pinguços dadas ao seu pé em louvor à dose do santo. 

Sempre com seu dicionário apostos em sua mesinha de trabalho, onde ficava a gaveta do caixa, ali lia e relia (percebi o cacófato, digo: som destoante) as páginas de seu dicionário, de onde sairiam suas palavras difíceis arremessadas aos fregueses.

Se lhe perguntassem: - “Tem palito de dente?”, ele responderia: - “Você, nobre freguês, está a procura de pequenos gravetos propícios à extração de restos alimentares pós refeições?”.  E se procurassem por rapadura, teriam como resposta: - “Meu caro freguês, você está solicitando um retângulo sólido, de doce natural, extraído da planta da família das gramíneas, processado via mecanismo laboral artesanal?”. Um rapaz queria sal de cozinha, e ele respondia: - “O jovem imberbe está a requisitar cloreto de sódio, cristalino, branco, usado na alimentação?”

Em conversas com pessoas, se lhe contestassem o sentido de uma palavra, era o mesmo que chamá-lo para a briga, não a briga braçal, mas o acinte, digo: a provocação, em desmoralizá-lo em sua verborragia, digo: grande abundância de palavras, mas com poucas idéias, no falar ou discutir.

Por todo seu esforço em querer falar difícil e bonito, conquistando a admiração principalmente dos matutos, ele é considerado o homem mais sabido de Cajazeiras. Nem que seja nas mesas de bares e esquinas onde a galhofa e o palavrório é a tônica.

Seu nome é: Zecão.

Eduardo Pereira do Blog AC2B
E-mail: dudaleu1@gmail.com


Zecão, segundo Zerinho


Zecão tinha a bodega na Rua da Tamarina próximo à Transportadora Marajó do Zerinho (foto), daí eis que nasceu uma amizade sólida com Zecão que depois deixou Cajazeiras e foi para o Juazeiro do Norte onde morreu, segundo informação do Zerinho.
Acrescento outra do Zecão, como todas, repassadas por Zerinho:
O freguês chega e pergunta se ele tem queijo?
Sempre atencioso, mas na hora da pergunta encontrava-se atarefado e respondeu com um rotundo NÃO!
O freguês pergunta a razão da falta do produto e ouve do Zecão:
‘Jamais poderei explicar a razão na qual está faltando este gênero alimentício no meu estabelecimento comercial’"
O repertório é grande, pena que não retive na memória, mas quando eu me encontrar Zerinho vou e ri e guardar as histórias do Zecão.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Dia de Finados na minha infância!

O Dia de Finados é o dia da celebração da vida eterna das pessoas queridas, portanto, um dia de oração pelos entes queridos que partiram para a eternidade. Isto para os adultos, para a meninada era um dia de muita animação, juntar a cera derretida das velas acesas e fazer uma bola de cera, quem conseguisse fazer a maior era invejado pelos outros. Seu Tinino, um negro alto e magro, neste dia não levava a sua carrocinha encarnada, com portinholas de vidro e com a sua buzina (gritando TININO!) para frente do Cine Éden, mais lucrativo era a porta do cemitério, onde estava reunida a maior parte da criançada da cidade, ó carrocinha apetitosa com chicletes Ping-Pong, amendoim torrado, balas juquinha e pipoca. Havia outros concorrentes como o seu Clarindo da carrocinha de picolé da Walmor, o de coco era o preferido. O rapaz com a sua tábua de pirulito. Mais outro com algodão-doce, a velhinha vendendo rolete de cana, e outros que me fogem à memória.
Os pais para se livrarem da chatice dos filhos eram mãos-abertas e a fartura corria solta.
Mas no meio desta algazarra toda, a meninada não se esquecia de ir várias vezes ao túmulo da menina da serpente (ver foto). Há a lenda de que esta menina morreu por ter dado língua para a mãe e, como castigo divino, tinha virado uma serpente. O medo maior era que o túmulo se rachasse e a serpente soltasse alguma escama... pronto... o mundo se acabaria. Era tão verdadeiro que se podia escutar o barulho da serpente se mexendo, bastava encostar o ouvido no teto do túmulo e ouvia uns ruídos (semelhante àquele produzido pelos búzios) e saía correndo, tanto que batia o pé na bunda. 



Foto: Eduardo Pereira
Esta lenda é tão forte na nossa cidade que se fez uma recordação durante o desfile cívico deste ano da Cidade de Cajazeiras (22 de agosto)