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sábado, 19 de novembro de 2016

O Tênis Clube e Chico Rolim

por Francisco Frassales Cartaxo, publicado hoje no  jornal Gazeta do Alto Piranhas
Francisco Matias Rolim foi figura importante em Cajazeiras. Nascido em Olho d’Água do Melão, ali perto da divisa do Ceará com a Paraíba, Chico Rolim afirmou-se, rapidamente, no comércio de tecidos, na sociedade e na política. Vereador, presidente da câmara municipal e prefeito duas vezes, eleito em 1963 e 1976, foi beneficiado por duas prorrogações de mandatos, no tempo da ditadura, governando o município por 11 anos. 
Antes do sucesso na política, Chico Rolim já era festejado no 
No centro da foto, Dr. Hilbebrando Assis e Margarida
Vasconcelos, então Miss Paraíba (1956), sendo
recepcionada no Cajazeiras Tênis Club
meio social, graças a seu jeito de lidar com as pessoas, sua animação nos badalados clubes daquela época: o 8 de Maio e o Primeiro de Maio. Por isso, teve participação ativa na criação do Cajazeiras Tênis Clube, o ponto da elite cajazeirense daquele tempo. Aliás, pretensiosa elite, a começar pelo nome dado ao clube, sem que houvesse sequer raquete de tênis, muito menos quadra para a prática do esporte... Até aí, tudo bem. Pior foi o Tênis Clube nascer violando a história. Mais tarde, muito depois, Chico confessou seu erro, como está registrado na página 97 do livro “Miolo do Sertão - A história de Chico Rolim contada a Sebastião Moreira Duarte”:
Pois bem, devo ter sido a segunda pessoa mais in- fluente em Caja- zeiras, no propó- sito de botar abai- xo a casa de Mãe Aninha, para ali se construir o Caja- zeiras Tênis Clube. O meu amigo dr. Hildebrando Assis, presidente do 8 de Maio, tratou, an- tes de tudo, de convencer seu vice-presidente de que deveríamos mudar não só o nome de nossa associação, mas também o local, e em toda a cidade nenhum espaço seria mais privilegiado para o clube mais requintado de Cajazeiras do que aquela área entre os dois baldes do açude.”
A casa de taipa que depunha contra a grandeza do Padre Rolim
E assim fize- ram. Prevaleceu a vontade dos de- fensores do “pro- gresso” contra os que se apegavam à “tradição”, co- mo se propagou então, inventan- do-se a falsa polêmica do “a- vanço” versus o “atraso”. A casa era marco da fazenda Cajazei- ras, pertencente aos fundadores da cidade. Para destruí-la, havia outra razão, guardada a sete chaves. Parte da elite “progressista” envergonhava-se da antiga morada do padre Inácio de Sousa Rolim. Por quê? Porque a casa era de taipa. Portanto, indigna para servir ao grande educador do sertão, o padre-mestre, o santo. A casinha depunha contra a grandeza do padre Rolim, diziam. Não invento. Apenas recordo. Menino, quase rapaz ouvi semelhante asneira, dita no alpendre do casarão onde nasci. E lembro quem usava esse argumento, sob o olhar triste de meu pai, Cristiano Cartaxo, inconformado com a derrubada da centenária casa de Mãe Aninha. Onde, aliás, um século depois, residiu o avô de Chico Rolim. Chico está aí, lúcido, para confirmar.
Ironia do destino: no Cajazeiras Tênis Clube, o ex-prefeito Léo
Abreu reúne beneficiados do Bolsa Família
Valeu a pena? Com menos de 50 anos de inaugu- rado, o Tênis Clu- be já se tornara um trambolho. Por um triz não virou sucata imo- biliária, até que, graças ao denodo de Rubismar Gal- vão e outros ab- negados, resolve- ram salvá-lo em nome da tradição. Que ironia! Tradição desdenhada nos anos de 1950, quando se pôs abaixo um patrimônio histórico de Cajazeiras. Tão importante quanto o acervo imaterial legado por Deusdetit Leitão à UFCG. Acervo que precisa sair das caixas onde se encontra. Do contrário terá o mesmo destino do Museu da Diocese. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Oligarquias dominam a política em Cajazeiras…


Brasões da família Rolim, Cartaxo e Coelho
A disputa política em Cajazeiras sempre foi ferrenha. De acordo com o escritor Francisco Cartaxo, a história da cidade não registra confusões partidárias sangrentas, salvo raríssimas exceções. 
A razoável calmaria política de Cajazeiras remonta à sua formação baseada em um entrelaçamento familiar que congregou na origem de três famílias principais (Rolim, Cartaxo e Coelho)”, declarou o escritor. Os três sobrenomes estiveram juntos, ao longo de muitas décadas, no comando da sociedade local.
 Ao longo da Era Vargas (1930/1945), novas lideranças foram surgindo de modo que, quando Getúlio Vargas foi deposto, um novo arranjo político local se formou em Cajazeiras, sob o manto dos dois partidos mais fortes do Brasil: UDN e PSD. Entre 1988 e 2008 foram realizadas seis eleições municipais, nas quais só a de 1992 não foi vencida por um profissional de medicina.
 Ao longo dos 61 anos, dos 15 pleitos para prefeito, nove foram vencidos por médicos, representando uma singularidade da política de Cajazeiras, cuja explicação pode ser encontrada, entre outras razões, no papel clientelista desempenhado pelos médicos, sempre em contato com a população carente de cuidados permanentes com a saúde.

 De acordo com Cartaxo, a euforia democratizante pelo fim do regime militar, sacramentado na Constituição de 1988, alterou o cenário político de Cajazeiras, por força da criação de novos partidos políticos em ambiente de amplas liberdades e, sobretudo, da redefinição nominal da histórica polaridade entre as duas lideranças cristalizadas sob a ditadura: Francisco Rolim e Epitácio Leite (foto).

A união de adversários também já foi vista na história política de Cajazeiras. E quem mais utilizou essa tática foi Otacílio Jurema (foto). Nos anos recentes, a aliança circunstancial mais importante se deu entre Chico Rolim e Epitácio Leite, rivais ferrenhos ao longo de mais de 20 anos, que se aliaram em 1988.
Dentre os acontecimentos recentes, três fatos ganham destaque.
 O primeiro deles é o governo de Ivan Bichara que, embora não tenha ligação direta com os pleitos municipais, a escolha do cajazeirense Ivan Bichara Sobreira (foto) foi o acontecimento mais da história política de Cajazeiras. “Não tanto pela influência 
eleitoral que exerceu no plano local, mas em virtude das ações e investimentos realizados pelo seu governo ou conseguidos por intervenção direta com o governador”, afirmou.
O segundo acontecimento de destaque foi o atentado ao bispo Zacarias Rolim de Moura (foto), em julho de 1975. Nessa data, a cidade foi abalada pela explosão de uma bomba de fabricação caseira, pertencente à diocese de Cajazeiras. Duas pessoas morreram dias depois e mais duas tiveram ferimentos graves que deixaram sequelas físicas e emocionais permanentes.
 O escritor lembra que o artefato encontrava-se embaixo da poltrona onde o bispo Zacarias costumava sentar-se para ver os filmes que ele mesmo selecionava. O resultado das investigações, as quais foram iniciadas pelas Forças Armadas, nunca foi divulgado. “Por isso, circulam muitas investigações em torno de possíveis autores ou executores materiais do atentado”, explicou. A renúncia de Léo Abreu (PSB), eleito em 2008 com 52,39% dos votos válidos, foi o terceiro e mais recente acontecimento de destaque em Cajazeiras. O jovem prefeito, que derrotou nas urnas o empresário Messias Filho, renunciou sem nenhuma motivação política identificável, sem que houvesse fato público capaz de justificar o gesto, conforme explicou Cartaxo. (Colaborou Valéria Sinésio)


terça-feira, 22 de abril de 2014

Cardeal Arcoverde e a diocese de Cajazeiras

Por Francisco Frassales Cartaxo 
O cardeal Arcoverde é nome de praça em Cajazeiras. Mais do que isso, em Pernambuco é nome de município, que se chamava Rio Branco, em honra ao Barão do Rio Branco, e virou Arcoverde, homenagem ao filho ilustre nascido na fazenda Fundão, propriedade de seu pai, Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti, conhecido como capitão Budá. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930), ainda menino quase rapaz, veio estudar no colégio do padre Rolim. Pouco tempo depois de concluir os preparatórios viajou para a Europa. Por isso, o cardeal Arcoverde ligou-se para sempre a Cajazeiras. Mas não fica apenas no estudo. Colega de Cícero Romão Batista no famoso colégio do padre Rolim, os dois tomaram rumos diferentes. Joaquim Arcoverde estudou em Roma e na França. Voltando ao Brasil, fez-se vigário e professor em Pernambuco. E bispo em São Paulo e no Rio.
Quando se espalhou a notícia dos “milagres do Juazeiro”, em 1889, a hóstia banhada em sangue na língua da beata Maria de Araújo, Arcoverde não gostou nada de saber que padre Cícero estava no caminho da perdição, como então era considerado pela hierarquia da Igreja o desvio trilhado pelo também ex-aluno do padre Rolim. Entre outras atitudes e ações contra padre Cícero, o bispo Arcoverde encaminhou à Congregação do Santo Ofício (Inquisição) informações críticas a respeito dos “falsos milagres”. Isso é o que admite o pesquisador americano Ralph Della Cava, especulando ainda que: “É possível que Arcoverde tenha também solicitado uma ação enérgica por parte de Roma a fim de destruir Joaseiro, assim como ele havia aconselhado d. Joaquim a fazer, em dezembro de 1891.” De fato, Joaquim Arcoverde criticou com dureza o seu xará, dom Joaquim Vieira, bispo do Ceará, por não ter cortado as raízes com ato enérgico, porque “aí no Joaseiro o ridículo é o caráter predominante. Por conseguinte, nada há ali de divino,” conforme carta transcrita por Della Cava, em seu livro Milagre em Joaseiro, o mais completo estudo sobre padre Cícero.
Que interesse tem isso?
Interesse histórico. Este ano a diocese de Cajazeiras festeja o seu primeiro centenário e, até agora, não encontrei nenhuma referência explícita ao papel desempenhado pelo cardeal Joaquim Arcoverde na decisão da Igreja de escolher Cajazeiras para sede da segunda diocese em território paraibano. Não li nem ouvi citação expressa, porém, ando farejando sua influência, quando nada, na estratégia traçada para a criação de novas dioceses no Brasil republicano, após o catolicismo deixou de ser a religião oficial.

Arcoverde conviveu com alguns dos mais importantes personagens dos “milagres do Juazeiro”. Além de padre Cícero, ele conheceu o padre Francisco Monteiro, o intelectual José Marrocos, que também foi seu professor, além de outros participantes ativos nos episódios protagonizados por padre Cícero e Maria de Araújo. Ora, Arcoverde foi padre, bispo, arcebispo em São Paulo e no Rio de Janeiro, antes de ser nomeado , em 1905, o primeiro cardeal da América Latina quando, já estava em plena execução o plano de reestruturação da Igreja no Brasil. Bem articulado dentro e fora da Igreja, a voz de Joaquim Arcoverde deve ter-se levantado a favor da criação da diocese de Cajazeiras.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Barão das Cajazeiras?

por Francisco Frassales Cartaxo
Coronel Justino Bezer- ra é nome da rua, que começa na padre Manuel Mariano e finda na avenida engenheiro Carlos Pires de Sá, perto do Cemitério Coração de Maria. Justino Bezerra era um homem rico, comerciante, proprietário ru- ral, político atuante no final do século 19 e início do século 20. Exerceu com desenvoltura a chefia política em Cajazeiras, tendo sido prefeito muitos anos, quando a Paraíba vivia sob o domínio da oligarquia chefiada por Álvaro Machado. Fazia contraponto à hegemonia dos Rolim, Cartaxo e Coelho. Por coincidência, coronel Justino faleceu em 1913, pouco mais de um ano após a morte de seu grande chefe.
O padre Raimundo Honório Rolim conta que o coronel Justino Bezerra tentou conseguir o título de barão. Teria sido o Barão das Cajazeiras? É provável que tenha desembolsado razoável quantia para comprá-lo. Pelo menos, se dispunha a fazê-lo. Mas a República amanheceu na casa do imperador Pedro II e, de madrugada, deportou a família real. Lá se foi assim a distribuição de honrarias em troca de dinheiro, e apoio material e político à Monarquia. Depois que dom João VI se instalou no Brasil, fugindo do exército de Napoleão, teve início a concessão de títulos de “nobreza” a ricos fazendeiros, produtores de café e açúcar, banqueiros, comerciantes, donos e traficantes de escravos. Era uma troca de favores entre o poder e homens ricos, militares, chalaças e mulheres.
Duque era o título mais importante. Na sequência vinham os de marquês, conde, visconde e, por último, o de barão, o mais insignificante nesse mercado de vaidades e interesses, muitas vezes, escusos. Mesmo assim, quem desejava ser barão haveria de desembolsar uma pequena fortuna, equivalente, na época, a 4 ou 5 anos de trabalho de um soldado, um alfaiate ou um carpinteiro, segundo estimativa de Laurentino Gomes no seu mais recente livro, “1889”.  O título de duque valia três vezes mais do que o de barão. Em tempo de crise, as concessões nobiliárquicas aumentavam muito, como sucedeu nos estertores da Monarquia. Muitos militares foram então agraciados, numa tentativa do Império granjear a simpatia das armas. Tantos que até virou piada. Dizia-se: “Sai daí, cachorro, senão eu ti faço barão”...
Nem por isso, o coronel Justino Bezerra conseguiu seu galardão. O velho monarca Pedro II já havia sido deposto, quando, mesmo assim, o visconde Nogueira da Gama lhe trouxe, burocraticamente, uma pasta com um monte de papeis, inclusive títulos de barão, prontinhos para assinatura, no último suspiro do poder... Quem sabe, o ato do coronel Justino lá estaria encalhado no meio daqueles quase documentos.

Não era só dinheiro, porém, o fermento da “nobreza” brasileira. Havia outras motivações para o reconhecimento do imperador. O título de duque era o topo da honraria. Durante décadas, até 1889, só duas pessoas tiveram a glória de exibir tamanho privilégio: Luís Alves de Lima e Silva, o famoso Duque de Caxias; e Isabel Maria de Alcântara, a duquesa de Goiás, filha de Domitila de Castro, a amante preferida, entre as muitas do imperador Pedro I, que, aliás, a fez marquesa de Santos. Caxias conquistou seu título, lutando na Guerra do Paraguai. E Domitila? Na cama. Mas isso é outra história...


sexta-feira, 28 de junho de 2013

O livro de memórias de Tota Assis

Por Francisco Frassales Cartaxo 

Livro de memória é baú de emoções da família e de amigos. E também fonte para curiosos, cientistas sociais e historiadores, embora usada com reserva em face do grau de subjetividade imanente ao memorialismo. O livro de Antonio Assis Costa desempenha esse papel com perfeição porque a história de Cajazeiras carece de depoimentos seguros, em especial, de informações políticas. Parece até que a imagem grandiosa do padre Inácio de Sousa Rolim projeta sombras fortes e desviam o foco de recantos históricos. Essa tradição vem desde a biografia pioneira do padre Heliodoro Pires, mais tarde retomada por Deusdedit Leitão. Eles e Antonio de Souza deixaram um legado fundamental, mas com visíveis lacunas. As memórias de Tota Assis ajudam a reduzi-las.
O livro de Tota Assis foi uma revelação quando comecei a estudar com mais cuidado a história política de Cajazeiras, mercê da riqueza de episódios narrados por ele, de pistas antes inexploradas, de perfis de figuras marcantes na área econômica, social, política, cultural e partidária da sua época. Tudo isso Tota registra com a simplicidade de quem escreveu suas memórias, sem preocupações com o rigor inerente aos cientistas. Isto não é função de quem divulga suas recordações. O memorialista fixa seu olhar em situações, e opina com total liberdade frente ao ambiente onde exerceu atividades profissionais, partidárias, políticas. Pouco importa o viés ideológico escondido nas opiniões. Separá-lo é tarefa para quem ler. O perfil que ele traça do mais influente chefe político de Cajazeiras do seu tempo extrapola uma ingênua impressão de criança. É o retrato perfeito do coronel, a célula básica do sistema político dominante na República Velha. Aluno do professor Crispim Coelho, o menino Tota Assis assim viu o coronel Sabino Rolim num dia de eleição:
Cel. Sabino Rolim
"Ao redor da mesa eleitoral, rondava com seu fraque preto e o correntão de ouro atravessado na barriga do colete, preso a um relógio de ouro maciço, pois fortuna não lhe faltava, o Coronel Sabino que gritava de dedo em riste: - É Epitácio e mais ninguém. A eleição é para Epitácio, é Epitácio... Presume-se que alguns goles de vinho do Porto ou conhaque Macieira legítimo, a bebida da moda, influenciavam os arroubos políticos dos Chefes".
Última fotografia em vida!
Além de responsável chefe de numerosa família, Tota Assis desempenhou diferentes missões em Cajazeiras, militante que foi de muitas causas, sempre abraçadas com ardor, às vezes, até se indispondo com amigos, eventualmente, situados em campos opostos. Essa marca de sua personalidade e muitas outras afloram no seu A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi, que seus familiares reeditam agora em formato e edição mais bem cuidada para marcar as comemorações dos cem anos de nascimento do bonachão Antonio Assis Costa. Homenagem justa, merecida, oportuna. E útil para a história de Cajazeiras.
P S – Este texto está na contracapa da terceira edição do livro A(s) Cajazeiras que eu vi e onde vivi, lançado no dia 20 de junho no Cajazeiras Tênis Clube.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jornal Nova Era

por Francisco Frassales Cartaxo
Nova Era é o nome do jornal oficial do município de Cajazeiras. Criado pela lei municipal nº 617, de 30 de janeiro de 1977, como veículo impresso “destinado a publicações periódicas de Atos do Poder Executivo Municipal Cajazeirense e de outras comunas, bem como assuntos de interesse da coletividade.” Assim diz a lei, cuja iniciativa foi do prefeito Antonio Quirino de Moura. O nome, Nova Era, nasceu de sugestão do ex-prefeito Celso Matos Rolim. A lei é assinada, também, pelo bacharel Heraldo Maciel Braga, um discreto servidor público, eficiente e correto, hoje aposentado. Instituído por Quirino em janeiro, no entanto só começou a circular em 17 de setembro de 1977, na gestão de Francisco Matias Rolim, eleito prefeito pela segunda vez em 1976.
O jornal Nova Era tinha o propósito de “circular quinzenalmente”. Ficou na intenção. Saía ao sabor da vontade do prefeito, não apenas com atos formais de divulgação obrigatória: leis, decretos, resoluções, editais, avisos, comunicados etc. Funciona também como meio de propaganda da administração e do gestor. Igual a muitos congêneres. Os primeiros números não exibiam maiores atrativos visuais ou de conteúdo. Com o passar do tempo, porém, as matérias começam a deslizar para a fronteira entre o legal e o irregular em face da legislação restritiva à personificação das ações com recursos públicos.
Professor Antonio de Souza e
o seu pseudônimo de Estephanio
   Na época de Chico Rolim, o Nova Era viveu um de seus momentos mais im- portantes, graças a colaboração do pro- fessor Antonio de Souza, instado a escrever textos so-bre a vida política, a-dministrativa, so- cial, religiosa do município, sempre com sua inegável seriedade. Antonio de Souza, que nos anos de 1920 man- tivera o jornal O Sport, produziu pa- ra o Nova Era matérias relevan- tes, ora sob o pseudônimo de Estephanio, ora de Fernando Fernandes. Os assuntos por ele abordados eram de grande significação, vistos hoje de uma perspectiva histórica. Assim, de periódico burocrático, de leitura monótona, o impresso da prefeitura passou a divulgar informações e comentários úteis à comunidade cajazeirense, com a chancela de quem se credenciara, como professor, funcionário público, político e jornalista, para falar de episódios e personalidades fundamentais da nossa história. O privilégio de contar com Antonio de Souza no jornal oficial do município ocorreu enquanto Chico Rolim governou Cajazeiras, e teve o apoio entusiasta de Marcos Pereira, então secretário do planejamento. Sem dúvida, o jornal Nova Era, com as características agora realçadas, prestou à história de Cajazeiras um serviço inestimável, além de economizar parcos recursos do município, pressuposto da sua criação.
        O jornal viveu diferentes fases, amoldando-se ao espírito e às inclinações do ocupante da chefia do executivo caja- zeirense. Na gestão de José Nello Rodrigues, por exemplo, o Nova Era ficou mais leve, de formato atraente, talvez mais profissional em seus padrões jornalísticos, mais parecido com peças de marketing político. Cometeu, porém, um equívoco lastimável ao interromper a sequência numérica que deveria ser permanente como sucede com os jornais oficiais. Em lugar do número puro e simples do exemplar, seguido do usual dia, mês e ano, passou a identificá-lo a cada ano, quebrando o sentido de órgão republicano. Assim agindo, deram-lhe dimensão anual, um passo, portanto, para vincular o jornal ao governo eventual e não ao município, instância constitucional da federação. 


Mais alguns releases do jornal:


domingo, 21 de abril de 2013

Netos do major Higino Rolim

Por Francisco Frassales Cartaxo
Higino Rolim é nome de rua em Cajazeiras. Paralela à Rua Epifânio Sobreira é uma ruela que vai do balde do Açude Grande à Praça Nossa Senhora de Fátima. Higino Gonçalves Sobreira Rolim e Epifânio Gonçalves Sobreira Rolim eram irmãos. Filhos do mestre-escola Francisco Gonçalves Sobreira e Josefa Maria da Conceição, so- brinha do padre Rolim. Higino estudou com seu tio padre. Mais tarde deu aulas de Latim no colégio famoso do seu tio avô, que fez seu casamento com a viúva Ana Antônia do Couto Cartaxo no sítio Prensa em 1886. Tiveram apenas dois filhos: Cristiano e Crisantina (Cartuxinha). Os netos foram 20, somados os 14 filhos dos dois casamentos de Cristiano e os 6 de Cartuxinha com Galdino Pires Ferreira. Dois dos netos do major Higino herdaram seu nome. O de apelido Gineto, o mais conhecido, está na fachada do Estádio Higino Pires Ferreira. E seria muito mais famoso se Bosco Barreto não tivesse melado judicialmente sua candidatura a prefeito de Cajazeiras, ensejando a eleição de Antônio Quirino em 1972. Não fora isso, Gineto teria sido o cara, muito embora o neto querido sempre foi o mais velho, médico Waldemar Pires Ferreira.
E o outro neto de nome Higino? O outro é o sexto dos 12 filhos do poeta Cristiano Cartaxo e Isabel Sales de Brito. Viúvo, Cristiano enamorou-se de uma linda menina de 16 anos. Amor roxo. Um poema impregnado de paixão todo santo dia... No final de 1921 casaram-se, ele com o dobro da idade da noiva. A cada ano faziam um filho. Higino, o sexto, nasceu em 1929, dois anos antes de morrer o avô.
Cristiano recebeu herança vultosa, mas era mão aberta. Formado em Farmácia, no Rio, em 1913, o pai, dono de imóveis urbanos e rurais, e de uma botica desde 1875, queria o filho à frente do negócio. Por isso, interrompeu o curso de medicina na Bahia. Errou. Erraram os dois. Cristiano era mais chegado a versos, a longos papos na farmácia. Ajudava os pobres. Em época de seca, de epidemias, de calamidade pública, trabalhava de graça. Na seca de 1942 já eram dez os filhos de Isabel, menores de 20 anos! Muita boca para alimentar. Receitas minguantes. Ativos fixos herdados sem a valorização e a liquidez de hoje. Cumpri-se então o ritual seguido por famílias católicas numerosas daquele tempo: um filho padre. Higino, coroinha dos padres salesianos, foi escalado, justo na penugem dos pentelhos...
Poucos anos depois, caminho quase igual percorreria a irmã Isabel. Ela foi até o fim da linha, fez-se freira salesiana, hoje aposentada. E feliz.
Higino, o neto, após 10 anos de estudo e tirocínio com os salesianos tomou a decisão traumática, acossado pela sua consciência: saiu do refúgio onde se abrigara dos pecados do mundo e das nefastas consequências da seca. Este mundo cá fora, no entanto, era cruel. Livre, mas perverso. Cheio de maldades, de trilhas sombrias, falsas veredas, emboscadas e bacamartes. E Higino, coitado, de baladeira na mão! Só. Sozinho no Recife de rios fétidos e lamacentos. A força moral e muita coragem o salvaram. Os sonhos adolescentes submersos no estudo, em rezas, mortificações no seminário afloraram de novo. Já homem feito, desajeitado em trajes civis, visitou Cajazeiras. Cadê a paixão cajazeirense dos doze anos? Sumiu. Cadê a prima por quem tanto suspirara? Casou. E as fantasias acasaladas pelo calor do sertão? O vento levou. Higino só redescobriu Cajazeiras, muito tempo depois, pelas mãos da filha Gardênia, casada com John Kennedy. Aí, já é outra história.