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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Cine Apolo XI; um caso sem solução

Um mistério rodeia Cajazeiras, Sertão da Paraíba, divisa com o Ceará. O povo conta um episódio que ocorreu há 35 anos, em 2 de julho de 1975, mas que se mantém sem autoria . Um atentado a bomba matou dois, mutilou outros dois e destruiu o Cine-Teatro Apolo 11. O alvo, dom Zacarias Rolim de Moura, bispo conservador da Diocese de Cajazeiras, escapou porque tinha viajado ao Recife. A história é contada, mas o mistério não se revela. Quem quis matar dom Zacarias? Auge do regime militar, a ditadura iria enfrentar, nos seis anos seguintes, a linha-dura contrária à redemocratização.
Cajazeiras (PB), 2 de Julho de 1975. A fase mais dura do regime militar de 1964 estava no auge. Na pacata cidade do Sertão da Paraíba, a 460 Km de João Pessoa e 600 Km do Recife, a população é sacudida por uma explosão sentida até fora da cidade. Às 21h, com as ruas desertas, a cidade havia começado a adormecer. Os moradores do centro correm para o local do impacto: o Cine-Teatro Apolo 11, fundado pelo bispo dom Zacarias Rolim de Moura, à época com 60 anos, um fanático por cinema e frequentador assíduo das sessões. O cenário era incomum e desolador para Cajazeiras: as poltronas destroçadas e quatro homens jogados ao chão. O soldado Altino Soares, o Didi, 43, com as pernas amputadas. O ex-recruta do Tiro de Guerra, Manuel Conrado (Manuelzinho), 19, com uma lasca de madeira na cabeça, o seu irmão e operador de projetor Geraldo Conrado, 31, com a perna direita partida e o corpo perfurados por fragmentos, e o adolescente Geraldo Galvão, 16, do abdômen para baixo perfurado e as pernas queimadas.
Uma bomba explodiu no Apolo 11, 15 minutos depois do encerramento da sessão. Levados para João Pessoa, Manuelzinho morreria dois dias depois e o soldado Didi, da PMCE, nove dias depois. Dom Zacarias escapou.
Naquela tarde, havia embarcado em um ônibus com destino ao Recife, onde – além das atividades pastorais – ia às distribuidoras alugar filmes para os cinemas da Diocese de Uma bomba explodiu no Apolo 11, 15 minutos depois do encerramento da sessão. Levados para João Pessoa, Manuelzinho morreria dois dias depois e o soldado Didi, da PMCE, nove dias depois. Dom Zacarias escapou. Naquela tarde, havia embarcado em um ônibus com destino ao Recife, onde além das atividades pastorais ia às distribuidoras alugar filmes para os cinemas da Diocese de Cajazeiras. Dom Zacarias, um bispo conservador, contraponto à Igreja progressista liderada pelo arcebispo Metropolitano, dom José Maria Pires (dom Pelé), e pelo bispo de Guarabira, dom Marcelo Carvalheira era frequentador privilegiado que tinha a sua cadeira cativa no Apolo 11. O saldo do atentado não foi maior devido ao imponderável de uma fita de má qualidade, que partiu várias vezes, encurtando a sessão em 15 minutos, e ao enredo do filme, um drama que não agradou à platéia admiradora de faroestes e filmes de aventura.


A quarta-feira, 2 de julho de 1975, tinha sido mais um dia comum na vida simples e bucólica de Cajazeiras, então com 40 mil habitantes. Cinema era a maior diversão e mais de 40 espectadores tinham acabado de assistir ao filme Sublime Renúncia, no Cine-Teatro Apolo 11. Uma parte saiu antes do final. A cadeira cativa de dom Zacarias Rolim de Moura estava vazia, mas debaixo dela havia uma pasta modelo 007. Na varredura final do auditório, antes do fechamento do cinema, Geraldo Galvão encontra e entrega ao soldado Didi a pasta abandonada. A explosão que sacudiu a cidade e assustou a população foi uma questão de segundos. Na curiosidade, ao abrir para saber de quem era, Didi puxa de dentro algo que imagina ser um gravador. A poucos metros, Manuelzinho grita: não mexe, é uma bomba. No susto, Didi soltou a bolsa no chão.
O impacto do poder explosivo da bomba-relógio arrancou-lhe as pernas e o levaria à morte, juntamente com Manuelzinho. Os dois Geraldos ficaram mutilados. O agente federal disse a mim que tinha 15 minutos ainda para ela explodir. Se ele (Didi) tivesse colocado devagarzinho no chão e se afastado, tinha evitado a morte, relata dona Francisca Soares (dona Francisquinha), 71, viúva do soldado. No dia seguinte, um avião da Força Aérea levaria oficiais do IV Exército, com sede no Recife, e o comando e investigadores da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança Pública da Paraíba a Cajazeiras. A cidade viveu 30 dias de suspense e temor de um novo atentado.
Na Paraíba, nos círculos políticos e da imprensa, a versão que se espalha é a de um atentado terrorista da esquerda contra o bispo dom Zacarias Rolim de Moura. Na oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) rebate, acusando ter sido um atentado da direita para incriminar a esquerda e desestabilizar a abertura política no País.
Um ano antes, havia assumido a Presidência da República o general de Exército Ernesto Geisel (1974/1979) sucessor do general Emílio Garrastazu Médici (1969/1974), que pressionado pela esmagadora vitória da oposição (MDB) nas eleições de 74, propõe à nação uma distensão (abertura) lenta, gradual e segura” de retorno à democracia. Uma série de atos da linha-dura e do braço clandestino do regime se sucedem para impedir a abertura política, a transferência do poder aos civis e o retorno das eleições gerais.
Ação seria da mesma safra da OAB e do Riocentro
Um encontro casual, na Prefeitura de João Pessoa, em 1986, onze anos depois do episódio, consolida os indícios de uma ação do braço armado clandestino da ditadura militar no atentado ao cine Apolo 11. O ex-vice-prefeito de Cajazeiras, Abidiel de Souza Rolim, 71, é apresentado por um amigo comum ao general Antônio Bandeira, um paraibano linha-dura e primeiro comandante das tropas do Exército que combateram a guerrilha do PCdoB no Araguaia, Sul do Pará, entre 1971 e 1974. Bandeira revela que havia conhecido Cajazeiras, ao que Abidiel responde com espanto: Um general na minha terra? Bandeira então diz que foi na época das investigações da bomba do cinema, sem dar maior detalhe.
Movido pela curiosidade, o dentista Abidiel Rolim afirma que prolongou o diálogo com o general, para tanto indagou se a bomba em Cajazeiras tinha alguma relação com os episódios da OAB/RJ e Riocentro. A resposta foi surpreendente: São da mesma safra, sintetizou sem acrescentar mais nada, segundo Abidiel.
Inquérito foi aberto pela Polícia Federal para apurar a autoria intelectual e quem colocou a bomba, e o Exército fez investigações. Os suspeitos imediatos um líder político, um padre e um gênio autodidata surgiram à cabeça da população, suspeitas nunca comprovadas. Quem teria interesse em matar dom Zacarias e conhecimento para preparar uma bomba? Os três suspeito eram cidadãos acima de qualquer suspeita para a Igreja e o povo.
Deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ex-líder estudantil e considerado um agitador, o advogado João Bosco Braga Barreto foi o mais ouvido pela Polícia Federal. O técnico em eletrônica Inácio Assis, admirado pela inteligência, também depôs. E o padre norte-americano e professor Francis Xavier Boyes, o Mr. Boyes, um liberal para os padrões de Cajazeiras que teria sido censurado por dom Zacarias foi incluído na relação. As suspeitas foram derrubadas nos depoimentos. Restou as de historiadores e políticos: matar um bispo conservador e atribuir à esquerda iria endurecer o regime.
No processo de abertura, uma série de bombas
A bomba do Cine-teatro Apolo 11, em Cajazeiras, Sertão da Paraíba, em 1975, foi o primeiro de uma série de episódios ocorridos ao longo dos governos dos generais Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo. Ao assumir, em 15 de março de 1974, Geisel anuncia o processo de abertura política lenta, gradual e segura. Escolhido por Geisel, Figueiredo assume, em 1979, com a missão de dar continuidade à distensão e devolver o poder aos civis.
A linha dura do regime e o braço clandestino da repressão deflagram, então, uma luta para inviabilizar a redemocratização com ações de violência e terrorismo. Em 1975, submetido a tortura, morre nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), de São Paulo, órgão subordinado ao Exército, o jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura. Em 1976, o líder metalúrgico Manoel Fiel Filho é também encontrado morto em uma cela do DOI-Codi. Ambos militavam no PCB.
Em 1977, o general Geisel enfrenta o auge de uma crise com o comandante do Exército, general Sylvio Frota, um linha dura que defendia o endurecimento do regime. Geisel resolve isolar o segmento militar contrário à abertura política. Surge a versão de que o general Frota pretende ser presidente da República, gerando a suspeita de preparava um golpe para depor Geisel. Para preservar a abertura política e a sua autoridade sobre as Forças Armadas, Geisel depõe Frota em 12 de outubro.
Eleito, indiretamente, pelo Congresso Nacional, o ex-chefe da Casa Militar de Geisel, João Baptista Figueiredo, enfrenta três episódios que elevam a tensão no País. Uma série de ataques à bomba a bancas de revistas, em capitais, é executada, em seguida, o Brasil é sacudido pela carta-bomba na sede da OAB/RJ, que matou a secretária da entidade, Lyda Monteiro Silva, em 27 de agosto de 1980.
Na última ação de desespero da direita, fracassa o atentado no pavilhão do Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, quando ocorria um show pela passagem do Dia do Trabalhador. A bomba explode no colo do sargento do Exército, Guilherme do Rosário, quando armava o dispositivo. Ele morre na hora e fica ferido o capitão Wilson Machado. O inquérito militar acusa a esquerda radical, mas depoimentos de agentes do regime à imprensa provam a ação da direita radical contra a redemocratização.
Dom Zacarias Rolim, o alvo do atentado
Um bispo tipo bonachão e tranquilo, mas apoiador do golpe e alinhado com o regime militar de 1964. O líder da Diocese de Cajazeiras, dom Zacarias Rolim de Moura, um tradicionalista que permitia missa celebrada em latim tinha, também, uma visão pragmática e a preocupação com a altivez e independência da Igreja. O longo bispado caracterizou-se pela criação de condições para a autonomia financeira da Diocese, agregando um patrimônio que se constitui fonte de renda para as atividades religiosas e de ensino. Construiu dezenas de imóveis pelos 43 municípios da Diocese, que servem de renda e como morada de padres. Por 40 anos conduziu a Diocese de Cajazeiras, zelando pela disciplina, os bons costumes e a educação.
Dom Zacarias não era um homem intolerante, mas era de posições firmes, tanto que considerava que a Diocese deveria ter arrecadação própria, e não depender do governo. Com a arrecadação do dízimo, conseguiu construir mais de 40 casas na Diocese, lembra o padre Antônio Luiz do Nascimento, o padre Buíca, 74, que o auxiliou no Conselho da Diocese. No período militar de 64, a gestão conservadora de dom Zacarias enfrentou divergências e resistências de padres da linha progressista, seguidores da Teologia da Libertação. O conflito mais profundo ocorreu com o grupo de cinco padres italianos, oriundos de Verona, que chegaram a partir de 1974.
Abrindo comunidades eclesiais de base, os italianos passaram a trabalhar na organização de camponeses e sindicatos e começaram a contestar a ação pastoral de dom Zacarias e a sua autoridade, e atuar em desobediência e sem dar satisfação das ações. O confronto só acabou após dom Zacarias pedir e conseguir que a Diocese de Verona chamasse os italianos de volta.
Politicamente de direita e ligado à ala conservadora da Igreja Católica, dom Zacarias tinha o perfil de homem culto, com domínio do português e com conhecimento profundo do latim e de história. Fã de cinema e assíduo frequentador das sessões, o bispo fazia a seleção dos filmes em cartaz nos cines Apolo 11 e Pax. Nas viagens ao Recife, pela Igreja, aproveitava para alugar fitas nas distribuidoras.
Nasceu em 1914, na fazenda Malhada das Pompas, em Umari, Ceará, divisa com a Paraíba. Era neto do tenente-coronel da Guarda Nacional, Vital de Souza Rolim (1829/1915), primeiro grande chefe político e fundador do Partido Liberal em Cajazeiras, no período da Monarquia .
Ordenou-se em 1937, no Seminário Arquidiocesano da Paraíba, em João Pessoa, retornando a Cajazeiras como padre e diretor do Colégio Diocesano Padre Rolim. Elevado a bispo de Cajazeiras, em 1953, pelo papa Pio XII, foi fiel ao legado de educador deixado pelo fundador da cidade, padre Ignácio de Souza Rolim (1800/1899). Dom Zacarias investiu no ensino, abrindo escolas em cidades da abrangência da Diocese.
Fundou, também, em 1964, um mês após o golpe, a Rádio Alto Piranhas (alusão ao Rio Piranhas, que se une ao Rio Peixe e formam o Rio Açu, no Rio Grande do Norte), e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cajazeiras, em 1969, incorporada pela UFPB, além dos cines Pax e Apolo 11, homenagem aos astronautas norte-americanos que primeiro chegaram à Lua. Sagrado bispo emérito de Cajazeiras, em 1990, pelo Papa João Paulo II, renunciou aos 76 anos. Morreu na Malhada das Pompas, em 5 de abril de 1992.
Explosão, dois mortos, feridos e… censura
Uma coincidência aconteceu naquela noite de 2 de julho de 1975. O filme em cartaz era Sublime Renúncia, com a atriz Romy Schneider em um dos principais papéis, que não agradou à maioria. Para piorar a insatisfação, o rolo de fita tinha problema e partiu várias vezes. A platéia apupava, assobiava, batia nas carteiras. Paguei pra vê, quero meu dinheiro de volta eram algumas frases jogadas antes dos mais irritados se retirarem. Ironia do destino ou a arte imitando a vida, o filme tem uma cena de assalto a banco, na qual a personagem provoca uma explosão de bomba-relógio ao abrir o caixa forte.
Os irmãos Geraldo e Luiz Conrado eram os responsáveis por operar os projetores do cine Apolo 11, que ficavam no primeiro andar do auditório. Por ainda estar na sala de projetores, Luiz saiu ileso. O caçula Manuel Justino Conrado (Manuelzinho), que tinha servido ao Tiro de Guerra de Cajazeiras, era o porteiro. O soldado Didi fazia a segurança e ajudava às vezes na portaria. O menor Geraldo Galvão, para ganhar uns trocados, corria o auditório depois das sessões para recolher objetos e pertences deixados pelos espectadores. O soldado Altino Soares (Didi) recebia e os guardava para os proprietários.
No final do filme, um ficava para desligar a máquina e o outro as luzes do auditório. Eu desci para apagar as luzes laterais. Foi aí que veio o papuco (pipoco). Fui atingido ainda na escada, narra Geraldo Justino Conrado, aos 66 anos, mostrando as pernas deformadas pela fratura e pelos estilhaços. Hoje, vive tomando remédios para dores e para os nervos”.
As vítimas foram levadas de imediato ao Hospital Regional de Cajazeiras para o socorro de urgência. Dois dias depois, seguiram para João Pessoa, internando-se no Hospital Edson Ramalho. Com o cérebro perfurado por uma lasca de madeira de uma das cadeiras, Manuelzinho permaneceu todo o tempo inconsciente e foi o primeiro a morrer, dois dias depois do atentado. Nove dias após o episódio, morre o soldado Didi. A bomba tinha um alto poder de destruição, a ponto de ter arrancado a grade da entrada do Cine-Teatro.
Quando eu cheguei, Didi ainda estava vivo. Eu disse: ‘Didi, e aí?’ Ele respondeu: ‘Eh, tem jeito, não’. As pernas (os restos) foram amputadas, recorda Geraldo Galvão. A infecção generalizada levou o soldado à morte.
O jornal oficial do governo da Paraíba, A União, revela no dia 4 de julho, que a notícia do atentado só tinha chegado a João Pessoa na noite anterior, quando da passagem pelo Aeroporto Castro Pinto de um avião da Força Aérea Brasileiro que conduzia um coronel, um major e um capitão do Exército, componentes de uma comissão investigadora. No aeroporto, embarca o secretário de Segurança Pública, coronel Audízio Siebra. À tarde, havia seguido para Cajazeiras o superintendente da Polícia Federal na Paraíba, Sadoc Thales Reis.
Na edição de 5 de julho, três dias depois, o jornal O Norte de João Pessoa informa que as autoridades não tinham identificado ainda quem colocou a bomba, porém, acreditavam que se tratava de uma ação terrorista com ramificações no Estado e que a pessoa que levou o petardo para a cidade não agiu isoladamente. Essa interpretação demonstrava, assim, que os órgãos de investigação consideravam que as autorias intelectual e material foram de pessoas de fora da cidade.
O governador Ivan Bichara (Arena) visita a cidade no dia 7 de julho e, segundo A União, impressiona-se com os estragos da explosão. Bichara reúne-se também com Dom Zacarias Rolim de Moura, que havia retornado à cidade. Ao jornal O Norte, edição de 8 de julho, o bispo afirma: Não tenho inimigos, se ideologicamente entre em divergência com outras pessoas, não vejo razão nenhuma para que isso justifique um atentado, pois sou apenas um discípulo de Deus.

O historiador e professor da Universidade Federal de Campina Grande, Francisco Chagas Amaro, 58, natural de Cajazeiras, à época um radialista com 23 anos, revela que a censura do regime militar passou a tomar conta do noticiário. Notícias na imprensa eram só as oficiais. O episódio da bomba ficou sob censura. Tudo corria sob sigilo. Ninguém se aventurou a comentar ou fazer juízo. Estabeleceu-se o silêncio. A imprensa não teve acesso ao inquérito, destaca.
A bomba do Apolo 11, a história não concluída

Ayrton Maciel amaciel@jc.com.br
Jornal do Commercio extraído do site Folha Vip de Cajazeiras.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

CHICO CARDOSO: O GARIMPEIRO DA HISTÓRIA

Registros Sobre o Autor de "Os Garotos de Ouro"
José Antônio de Albuquerque
O advogado e jornalista Francisco Alves Cardoso, o conhecido Chico Cardoso, acaba de colocar na praça mais um trabalho de sua la­vra. Além dos quatro trabalhos já publicados: Perfil Legislativo, José Ga­delha Sempre Líder, Raízes da Família Cardoso e Nos Bastidores da Política, Chico agora nos presenteia com um trabalho de fôlego, dedica­ção e amor à pesquisa histórica.
Recebi os originais de Os Garotos de Ouro, que narra a Histó­ria dos fundadores do Seminário Diocesano Nossa Senhora da Assun­ção, (1955-2005), encravado numa colina, ao norte da cidade de Caja- zeiras, como se estivesse abençoando os filhos desta terra e deste ser­tão áspero.
Sob o impacto da surpresa, rendi-me à generosidade do convite para descrever sobre o autor. Esta lembrança é creditada ao coração de Chico Cardoso e à sua amizade que, para mim, constitui-se num valioso patrimônio.
A afinidade existente entre nós tem um denominador comum, que é o amor pelo rádio, pelo microfone, pela notícia política, pelo jorna­lismo e, principalmente, pela pesquisa histórica.
Fiquei surpreso. Não sabia que Chico Cardoso, além de ser um jornalista político dos mais bem informados da região, um radialista inte­ligente na forma e no conteúdo de produzir e dar a notícia, um cantador de versos de literatura de cordel, tinha a coragem e a capacidade de se tornar um garimpeiro da história. É difícil fazer história. É difícil, mais ain­da, pesquisar.
Aplausos para Chico Cardoso que, com muita paciência e abne­gação, soube muito bem narrar a história do cotidiano dos tempos áureos do Seminário e de seus alunos fundadores, os pioneiros de 1955.
Chico Cardoso projeta em sua narrativa, a vida dos seminaristas e vai nas entranhas do seu dia a dia, de forma até jocosa, mas deliciosa, rebuscando, em forma de oração, as reminiscências de uma época.
É uma leitura gratificante, é o registro histórico de um importante momento da vida religiosa dos sertões da Paraíba. É uma contribuição, fruto da verve poética e da vivência do autor, na busca da verdade histó­rica.
O relato de Os Garotos de Ouro nos remete aos sofrimentos de todos aqueles que ajudaram a construir uma história alicerçada na fé. Na realidade, a história de Chico Cardoso se confunde com a do Semi­nário Nossa Senhora da Assunção: o que ficou perdido renascerá na verdade do amanhã, na lembrança do ontem, quando o homem, um ani­mal essencialmente histórico, sentir saudades do seu tempo e, no hoje, ter a gratificação de estar realizando para o futuro.
Chico Cardoso e Os Garotos de Ouro são como pedras rolan­do junto a tantas outras pedras, na poeira da estrada, nos labirintos das caminhadas, nas veredas das ilusões, nas injustiças dos homens, nos mistérios da fé, no segredo da Trindade, no silêncio da oração.
Chico Cardoso não quis ser padre. Deixou o Seminário, mas o Seminário não saiu de sua alma e de seu coração. Trouxe consigo, da Colina da Assunção, o temor a Deus e o encanto pela devoção a Nossa Senhora.
Gosto e admiro em Chico Cardoso a sua forma de ser religioso. Sempre que sobe os degraus para chegar ao primeiro andar da Rádio Alto Piranhas, onde todas as noites tem um programa de rádio, o seu gesto primeiro é levantar o braço, pôr a mão direita sobre um Cristo cru­cificado e se benzer. Ao manifestar este gesto, nota-se que ele fica mais forte para enfrentar o seu trabalho.
Com Os Garotos de Ouro, Chico Cardoso resgata um impor¬tante fato da vida religiosa da Diocese de Cajazeiras. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

História: O seminário de Cajazeiras (do livro os Garotos de Ouro)

Como Tudo Começou:
LANÇAMENTO DA PEDRA FUNDAMENTAL
 
A pedra fundamental do Seminário de Nossa Senhora da Assunção foi benta em Roma, por S. S. o Papa Pio XII, então gloriosamente reinante, no dia 16 de junho de 1950, Festa do Coração de Jesus.
Transcorria festivamente o dia 22 de agosto, mais um aniversário de Cajazeiras, comemorando-se os 150 anos do nascimento do seu imortal fundador, Padre Mestre Inácio de Sousa Rolim.
Naquele ano jubilar de 1950, era chegado, naquela mesma data, o momento histórico, ardentemente desejado por D. Mousinho, seu Clero e por todos os seus diocesanos.
Refiro-me a mais um acontecimento inesquecível e de significados indeléveis do tão famoso 22 de agosto, no calendário cajazeirense. Soara a hora deveras almejada em que S. Exa. Revma. D. Luís do Amaral Mousinho, de saudosa e imortal memória, contando com a presença efetiva e afetiva de D. Anselmo Pietrulla, Bispo de Campina Grande; D. Antônio Campelo, Bispo Auxiliar de Cuiabá; dos Sacerdotes Diocesa­nos e Salesianos e das autoridades locais: Prefeito Arsênio Araruna, Juiz de Direito Antônio do Couto Cartaxo, Presidente da Câmara de Vereadores,José Bonifácio de Moura e também com a participação de representações dos estabelecimentos de ensino da cidade e grande massa popular, revestido de paramentação solene, deu início à cerimônia do lançamento da Pedra Fundamental do Seminário Nossa Senhora a Assunção.
O Exmo. e Revmo. D. Mousinho entoou, em Canto Gregoriano,e bênção litúrgica e aspergiu com água benta o local, onde está construído nosso querido Seminário.
Fizeram-se fotografias. O ato foi saudado com vibrantes e estrepitosas salvas de palmas. A Banda de Música Municipal executou um dobrado. Houve espocar de foguetes. Foi entoado, fervorosa e entusiasticamente, o hino religioso-popular “Queremos Deus”, testemunhando a expansão de fé de todos os presentes.
O Bispo Diocesano dirigiu sua palavra de Pastor, com júbilo, sabedoria, eloquência e amor, afirmando que aquela tarde magnífica, da­quele dia solene, constituía “o mais emocionante momento de sua vida episcopal”, porque talvez nenhum outro empreendimento mais notável pudesse executar para a sua Diocese.
Na ocasião, ressaltou a urgente e grave necessidade do recrutamento e orientação das Vocações Sacerdotais, acentuou a sublime missão do sacerdote, evangelizador dos povos, propugnador da verda­de e sentinela dos direitos humanos.
Formulou ardentes votos para que o futuro Seminário forjasse corações abrasados como o de outro Moisés e inteligências brilhantes como a daquele Santo Sacerdote, Padre Mestre Inácio de Sousa Rolim.
Pediu insistente e confiante aos diocesanos que elevassem preces ao Altíssimo para que a semente plantada nascesse, crescesse, flo­rescesse, frutificasse e safrejasse (sic), abundantemente, numerosos san­tos sacerdotes para a Igreja de Deus.
Na oportunidade, disse, igualmente, que fazia presente ao Semi­nário de um Cálice banhado a ouro, recebido como lembrança de sua eleição para Bispo de Cajazeiras.
Afirmou que muitos compreendem o valor do Seminário, embo­ra outros existam que não querem ver a sua alta missão de formar cida­dãos que se tornam verdadeiros expoentes da vida social. Ao finalizar, proclamou em alto e bom som: "Neste Seminário irá se construir toda a segurança de nosso passado e toda grandeza de nosso futuro”.
Por sua vez, agradeceu a generosidade até agora recebida em prol do Seminário a ser construído, mas ressaltou, de maneira especial, o grande apoio da Prefeitura Municipal, através da pessoa do seu dinâmico Prefeito Arsênio Rolim Araruna e da benemérita Câmara de Verea­dores, tendo como Presidente o Sr. José Bonifácio de Moura, pela doação de um terreno de nove (09) hectares, com sua escritura devidamente registrada no Cartório do Registro de móveis, deste Município, no qual foi construído o Seminário.
Em seguida, convidou, D. Antônio Campelo, Bispo Auxiliar de Cuiabá, para usar da palavra, conclamando toda a Diocese de Cajazeiras cerrar fileiras, ardorosas e generosamente, na grande cruzada pela causa da construção e funcionamento do Seminário.

Dom Campelo, conhecedor profundo da fé e da generosidade do povo sertanejo, concitou os católicos da Diocese a prestarem o mais decisivo e irrestrito apoio ao empreendimento da criação do Seminário, obra fundamental e anseio ardente do coração de seu grande Pastor D. Mousinho.
Procedeu-se, finalmente, o lançamento da pedra fundamental que foi colocada dentro de um tubo metálico “juntamente com objetos da época, quais sejam Moeda do Brasil e uma do Estado do Vaticano, jornais, etc.”.
O Sr. Bispo depositou o invólucro em um receptáculo especialmente preparado, selando-se com cimento que os guardará à posteridade. Tudo foi depositado e acompanhado de um original da Ata da solenidade, escrita pelo Padre Américo Sérgio Maia, Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade e Cura da Sé.
Convém notar que antes de ser depositado o original da referida Ata, no aludido receptáculo, foi extraída da mesma uma cópia, naquele momento, como perpétua memória daquela ocorrência verdadeiramente histórica.
Cumpre-me, ademais, registrar que assinaram aquela ata, após sua leitura e aprovação, os Exmos. Srs. Bispos, sacerdotes e autoridades presentes, a saber: D. Luís do Amaral Mousinho, D. Anselmo Pietrulla, D. Antônio Campelo, Arsênio Rolim Araruna, Prefeito Municipal; Dr. Antônio do Couto Cartaxo, Juiz de Direito da Comarca de Cajazeiras; José Bonifácio de Moura, Presidente da Câmara Municipal; Mons. Abdon Pereira, Padre Osias Teixeira Leite - SDB, Padre Zacarias Rolim de Moura, Padre Oriel Antônio Fernandes, Padre Mário Balbi - SDB, Padre Luís Laires da Nóbrega e Padre Américo Maia.

FESTA DE INAUGURAÇÃO
No dia 30 de janeiro do ano de 1955, dia inesquecível e histórico para toda a Diocese de Cajazeiras, foi inaugurado, solenemente, o Seminário Nossa Senhora da Assunção.
Cajazeiras desperta alegre e feliz, pelas quatro horas da manhã com uma alvorada festiva. Ouve-se o troar de bombas. Escuta-se a execução de melodiosos dobrados da Banda de Música Municipal a desfilar pelas principais artérias da Cidade.

SOLENE PONTIFICAL

Prosseguindo a programação desta data inaugural, às cinco ho­ras da manhã, D. Zacarias Rolim de Moura celebrou Solene Pontificai, na antiga Catedral de Nossa Senhora da Piedade, atual Matriz de Nos­sa Senhora de Fátima, em ação de graças pelo feliz evento da conclu­são dos trabalhos da construção do Seminário Diocesano, cuja inaugu­ração, naquele dia, se efetivava solenemente. Ao Evangelho, fez um be­lo sermão o Côn. Manoel Vieira, Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, ressaltando o altíssimo significado da inauguração do Seminário, para a formação dos futuros sacerdotes da Diocese de Cajazeiras.
 Assistiram à Solene Missa Pontifical os Srs. Bispos: D, Luís do Amaral Mousinho, D. Aureliano Matos, D. Manoel Pereira da Costa, o clero, religiosas, autoridades locais, seminaristas, representações das paróquias e o povo católico em geral.
Chegando a Procissão ao Seminário, procedeu-se imediatamente à inauguração. Fizeram-se ouvir quatro oradores: D. Zacarias Rolim de Moura, D. Luís do Amaral Mousinho, Côn. Manoel Vieira e Mons. Abdon Pereira, os quais extravasaram seu contentamento com a indivisível vitória da Diocese de Cajazeiras que, após uma batalha de grandes e incontáveis sacrifícios, nesta data marcante e jamais esquecida, inaugurava o majestoso edifício do Seminário Diocesano, mercê de Deus e das bênçãos de Nossa Senhora da Assunção.
Proferidos os discursos, é chegado o momento do corte da fita simbólica de inauguração. A fita deveria ser cortada pelo Côn. Manoel Vieira, honra que lhe coubera por ser Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, que mais contribuíra na Campanha Mariana, em favor do Seminário. Entretanto, o Revmo. Côn. Manoel Vieira declinou da honra para o Exmo. Sr. D. Luís do Amaral Mousinho, uma vez que ele, quando Bispo de Cajazeiras, tinha lançado a Pedra Fundamental do bonito edifício que ora se inaugurava.
Organizou-se uma triunfal procissão com a imagem de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira do Seminário, partindo do Palácio Episcopal, em piedosa e festiva caminhada, para o Seminário.

ATO INAUGURAL

Assistiram à Solene Missa Pontifical os Srs. Bispos: D, Luís do Amaral Mousinho, D. Aureliano Matos, D. Manoel Pereira da Costa, o clero, religiosas, autoridades locais, seminaristas, representações das paróquias e o povo católico em geral.

Chegando a Procissão ao Seminário, procedeu-se imediatamente à inauguração. Fizeram-se ouvir quatro oradores: D. Zacarias Rolim de Moura, D. Luís do Amaral Mousinho, Côn. Manoel Vieira e Mons. Abdon Pereira, os quais extravasaram seu contentamento com a indivisível vitória da Diocese de Cajazeiras que, após uma batalha de grandes e incontáveis sacrifícios, nesta data marcante e jamais esquecida, inaugurava o majestoso edifício do Seminário Diocesano, mercê de Deus e das bênçãos de Nossa Senhora da Assunção.

Proferidos os discursos, é chegado o momento do corte da fita simbólica de inauguração. A fita deveria ser cortada pelo Côn. Manoel Vieira, honra que lhe coubera por ser Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, que mais contribuíra na Campanha Mariana, em favor do Seminário. Entretanto, o Revmo. Côn. Manoel Vieira declinou da honra para o Exmo. Sr. D. Luís do Amaral Mousinho, uma vez que ele, quando Bispo de Cajazeiras, tinha lançado a Pedra Fundamental do bonito edifício que ora se inaugurava.

Organizou-se uma triunfal procissão com a imagem de Nossa Senhora da Assunção, Padroeira do Seminário, partindo do Palácio Episcopal, em piedosa e festiva caminhada, para o Seminário.

                              (Fonte de Pesquisa: Anuário Estatístico da Diocese de Cajazeiras)
 

Memórias fotográficas do livro "Os Garotos de Ouro"






Prefácio d'Os Garotos de Ouro

Francisco Alves Cardoso, aluno fundador do Seminário Nossa Senhora da Assunção, transfigurado em Bacharel em Ciências Jurídi­cas e Sociais, jornalista, escritor, criador e apresentador de abalizados Programas Radiofônicos, competente radialista, teve a feliz e brilhante iniciativa de escrever, em primoroso estilo, e brindar o Cinqüentenário do seu Seminário supra dito, com o livro que intitulou: Os Garotos de Ouro.
O seu livro, inegavelmente, é um testemunho de imorredoura gratidão ao Seminário que, incansável e fecundamente, soube minis­trar ao seu alunado fundador formação espiritual, intelectual, esportiva e social, em todo seu conteúdo educacional.
O livro, Os Garotos de Ouro, traz a recordação bem viva de to­dos os cantos e recantos do Seminário, principalmente o Salão de Estu­dos que, dividido por uma bonita cortina, servia de Capela, bem como o refeitório, os dormitórios, salas de aula e apartamentos da administra­É deveras admirável ao demonstra, sobremaneira, o clima de família reinante entre superiores, alunos e o pessoal da administração, em to­da a Casa. 
É deveras admirável a paciência e o perseverante espírito de pesquisa do autor, em garimpar, por vários quadrantes do Brasil, junto aos seus colegas fundadores do Seminário, a síntese de suas precio­sas autobiografias. 


Os Garotos de Ouro é uma lembrança de valor inestimável e imperecível, nas festivas e solenes celebrações do Jubileu de Ouro da fun­dação do Seminário Nossa Senhora da Assunção, que funcionou, sem interrupção, durante seus 50 anos de frutuosas jornadas educacionais.