segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A CIDADE CENTENÁRIA

A CIDADE CENTENÁRIA
Do livro Do Miolo do Sertão
A História de Chico Rolim contada a Sebastião Moreira Duarte
pags. 164 a 165

D. Íracles
A idéia não foi minha, pois, para falar a verdade não me ocorreu. A idéia foi dessa extraordinária mulher, ainda hoje pranteada por toda a Cajazeiras, D. Íracles Brocos Pires, conhecedora, como poucos, das grandes efemérides da cidade dos Rolim e sempre preocupada em que as novas gerações se mantivessem à altura da tradição cultural que recebem por herança.
Mal começava eu tomar pé no pesado encargo que me caía sobre os ombros, fui procurado pela ilustre senhora, acompanhada de bem representativa comissão, para que desse a minha palavra, como novo mandatário do município, sobre a comemoração - que, afinal, estávamos devendo a nós mesmos - do 1º centenário da cidade de Cajazeiras. Como se estivessem recitando a peça Que antes ensaiaram cuidadosamente, todas me repetiam em coro que era uma vergonha deixarmos passar em brancas nuvens tão significante data. Se o Dr. Otacílio Jurema, pela marca do seu próprio temperamento, não se sensibilizara com a idéia, não seria admissível que o novo prefeito 
 fosse repetir a mesma negativa diante de tão gradas figuras. O problema, pensei eu, seria exatamente a data: o centenário da cidade já  havia se passado em 1963. Assim sendo...
Prefeito Rolim
- Assim sendo - consertou imediatamente D. Ica - você decreta todo o ano de 1964 como o ano da comemoração do centenário de 1963. Eu, claro, concordei, não apenas porque não encontrava meios de resistir à simpática pressão das visitantes, mas também porque, pessoalmente, sustentava que foi um imperdoável esquecimento não termos dado, em temo, a devida atenção à ocorrência.
- É, vocês tem razão... Sobretudo porque não dá para esperarmos pelo próximo centenário. Vamos cuidar disso já já.E logo organizamos a Comissão do Centenário, responsável por um série incontável de eventos, no meio dos quais tive que incluir, de pronto, a entrega, à população das primeiras obras do meu governo, o qual, lamentavelmente, não tinha forças para devolver-nos o tempo passado, mas tratava de dar a sua contribuição para recuperar a cidade do atraso em que dormira por tantos anos.
Mas não quero, ante de seguir adiante no rastro dessas lembranças  perdidas, deixar de registrar o extraordinário brilho que foi dado, à Semana do Centenário, em novembro de 1964, pelo desempenho do Grupo de Teatro de Cajazeiras, sob a direção da própria D. Íracles Pires, levando em plena rua (nas escadarias do açude, descendo a Avenida Presidente João Pessoa) para a multidão incalculável, o Auto da Compadecida, do paraibano, Ariano Suassuna, a qual, segundo os entendidos, encenada por sertanejos que entendiam mais do que ninguém do que se tratava, foi uma das melhores performances já alcançada por esta famosa obra do repertório teatral brasileiro. E, para não ficar e nosso mundo fechado, tivemos, na mesma ocasião, a convite de seus colegas da terra, outro grupo amador da capital, que, no mesmo lugar, encenou, numa iniciativa absolutamente pioneira, a comédia Odorico, o Bem-amado, depois conhecida em todo o País, por sua transformação em novela de TV.

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